Inteira Demais para Caber no Agora


Nossa vida foi tão boa que doía — não enquanto acontecia, mas agora, que sobra inteira dentro de mim.

Não era perfeita. Nunca foi. Havia dias ásperos, silêncios que demoravam mais do que deviam, pequenas impaciências espalhadas pela casa como objetos fora do lugar. Mas nada disso pedia conserto. Era só o modo como a vida respirava entre nós.

Eu não tiraria nada. Nem os atrasos, nem as discussões bobas sobre coisas que hoje nem lembro direito. Nem o jeito como você deixava a luz acesa no corredor, como se a casa precisasse de vigília. Nem as manhãs em que o café esfriava porque a conversa tinha mais urgência do que o tempo.

Tudo cabia. Talvez seja isso que pesa.

Porque agora não há mais onde colocar o que ainda vive. As lembranças não diminuem com o tempo — elas se organizam melhor, ocupam menos espaço visível, mas ficam mais densas. Como se cada detalhe aprendido ao seu lado tivesse criado raiz.

Tem dias em que quase não penso. Sigo. Faço o que precisa ser feito. Abro janelas, arrumo coisas, respondo ao mundo com a educação possível. E, de repente, sem aviso, alguma coisa encosta — um gesto que repito sem perceber, uma música qualquer, o modo como a luz entra no fim da tarde — e tudo volta com uma nitidez que não machuca de uma vez. Machuca devagar.

Como quem não quer estragar o que foi bonito.

Eu não mudaria nada. Nem um pedaço mínimo de nós. Porque foi inteiro assim — com suas falhas, seus excessos, suas pausas — que a nossa vida aconteceu. E é esse inteiro que ficou.

Viver depois disso não é exatamente seguir.

É carregar.

Silvia Marchiori Buss

 

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