A Conta Que Não Fecha

Chamaram de acerto de contas, mas ninguém soube dizer com quem. Veio num papel fino, dobrado em três, sem timbre, sem assinatura — apenas uma frase: comparecer com o que deve.

Arnaldo levou aquilo para a mesa do almoço como quem leva sal. Leu em voz alta, mastigando devagar, como se as palavras fossem parte da comida.

— Devo o quê? — perguntou, mais para o prato do que para a mulher.

Lúcia não respondeu. Estava ocupada em retirar uma espinha invisível do peixe, gesto minucioso que não resolvia nada. O filho, no canto, ria de um vídeo qualquer. A vida, ali, seguia com uma desenvoltura quase ofensiva.

Arnaldo dobrou o papel com cuidado, guardou no bolso da camisa e saiu. Não disse para onde. Nem ele sabia.

Na rua, o dia tinha uma luz limpa demais para quem carregava cobranças. As pessoas passavam com sacolas, compromissos, pequenos destinos resolvidos. Ele andou sem direção, como quem tenta lembrar um endereço que nunca teve.

Parou diante de uma igreja. Não por fé — por sombra. Sentou-se no banco mais ao fundo, onde ninguém nota ninguém. Pensou em dívidas comuns: contas, promessas, atrasos. Nada daquilo cabia no papel.

— O senhor veio acertar? — perguntou uma voz ao lado.

Arnaldo virou-se. Um homem de idade indefinida, roupas simples, olhos atentos como quem lê o que não está escrito.

— Não sei o que devo — respondeu Arnaldo.

O homem assentiu, quase satisfeito.

— É sempre assim.

Ficaram em silêncio. Um silêncio cheio, desses que ocupam mais espaço do que conversa.

— Tente lembrar — disse o homem, por fim. — Não do que fez. Do que deixou de fazer.

Aquilo não ajudou. Ou ajudou demais.

Arnaldo viu coisas pequenas surgirem com uma nitidez incômoda: o telefonema adiado até virar nunca, a visita prometida que virou desculpa, o abraço interrompido por pressa. Viu também coisas maiores, mas menos claras — decisões tomadas por cansaço, palavras escolhidas por economia, ausências disfarçadas de rotina.

Riu. Um riso curto, meio seco.

— Isso dá um inventário.

— Dá uma vida — corrigiu o homem.

Arnaldo levantou-se. Agradeceu sem saber por que e saiu. Não voltou para casa. Seguiu andando até encontrar uma fila. Não sabia do que era, mas entrou. Havia um guichê ao final, uma mesa simples, uma mulher que anotava nomes.

— Documento? — pediu ela.

Arnaldo entregou o papel dobrado.

Ela leu, assentiu, e escreveu algo num caderno gasto.

— O senhor pode pagar em partes — disse, sem levantar os olhos.

— Como?

Ela ergueu a cabeça então, e sorriu com uma gentileza cansada.

— Já começou.

Ele não entendeu, mas ficou ali, parado, esperando instruções que não vieram. As pessoas à frente e atrás avançavam, entregavam algo invisível, recebiam um gesto de cabeça e iam embora mais leves ou mais pesadas — era difícil dizer.

Quando chegou sua vez de novo — não sabia quanto tempo havia passado — a mulher devolveu o papel.

Agora havia outra frase, escrita por cima da primeira: seguir com o que falta.

Arnaldo guardou no bolso, como antes.

Voltou para casa ao entardecer. Lúcia estava na cozinha, o filho no mesmo riso de sempre. Tudo no lugar, como se nada tivesse sido cobrado.

Ele abriu a janela. O ar entrou com a mesma indiferença de sempre.

— E então? — perguntou Lúcia, sem olhar.

Arnaldo pensou em responder alguma coisa definitiva, dessas que resolvem histórias. Não encontrou.

— Fica para amanhã — disse, por fim, com uma naturalidade quase alegre.

Sentou-se à mesa. Pegou o prato. Mastigou devagar.

Lá fora, alguém discutia por uma vaga de estacionamento. Dentro, a comida estava um pouco fria. Arnaldo riu sozinho — não era felicidade, nem era de tristeza. Um riso deslocado, como quem percebe tarde demais que a conta nunca fecha, mas o restaurante continua aberto.

E, por algum motivo que ele não saberia explicar, aquilo não parecia inteiramente ruim.

Silvia Marchiori Buss

 

 

 

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