Uma Quase Comédia Humana
Deram-lhe uma ficha de metal, sem nome, sem data, sem explicação. Apenas um número torto, gravado com pressa, como se até a eternidade andasse sem tempo.
Ele quis perguntar alguma
coisa, mas ninguém ali parecia encarregado de responder. Havia apenas um
corredor longo, um balcão gasto, algumas portas entreabertas e uma fila que
avançava com a solenidade das coisas absurdas. Não era um lugar de dor escancarada.
Pior: era um lugar de procedimentos.
Entrou na fila como quem entra
num destino por engano.
O chão, de tão pisado, perdera
qualquer convicção. As paredes tinham uma cor indecisa, entre o encardido e o
resignado. Acima das portas, placas modestas anunciavam setores que não
prometiam nada de bom: Pendências Afetivas, Omissões Reincidentes, Orgulho de
Pequeno Porte, Culpa Mal Declarada, Promessas Feitas em Voz Baixa.
Ele leu duas ou três vezes,
esperando que aquilo se tornasse menos ridículo. Não ficou.
À sua frente, uma mulher
segurava o próprio passado com as duas mãos, como se fosse uma bolsa pesada
demais para largar no chão. Atrás, um homem de terno bem passado limpava os
óculos a cada minuto, embora eles já estivessem limpos. Mais adiante, uma senhora
cochilava em pé, com a tranquilidade de quem, depois de certa idade, já não se
espanta nem com o juízo final.
— Isso anda? — perguntou ele,
sem saber exatamente a quem.
A mulher à frente não virou o
rosto.
— Anda, sim. Mas nunca quando
a gente quer.
Mais ninguém comentou. Parecia
uma frase já usada outras vezes naquele corredor.
Havia um relógio na parede,
desses antigos, redondos, respeitáveis, mas os ponteiros não coincidiam com
nada. Marcavam um horário inútil, talvez o das pessoas que chegam tarde à
própria vida.
Quando a fila avançou dois
passos, ele percebeu que cada pessoa carregava consigo alguma coisa invisível e
nítida. Não eram malas nem papéis, mas cenas. Um gesto que não devia ter sido
feito. Uma palavra lançada de propósito. Um silêncio cultivado como vingança.
Uma visita adiada até virar enterro. Um amor mantido em pé só por hábito, como
se hábito fosse coluna.
Ninguém estava ali por grandes
crimes. Isso era o mais humilhante.
Não havia assassinos teatrais,
tiranos de romance, figuras com sangue nas mãos. Havia gente comum, dessa que
cumprimenta no elevador, escolhe fruta madura, pergunta pelo tempo, devolve o
troco errado quando convém. Gente sem vocação para a monstruosidade, mas com
algum talento para o desgaste.
Ele achou aquilo profundamente
ofensivo.
Esperava mais grandiosidade.
Se era para prestar contas,
que ao menos houvesse fogo, abismos, sentenças em latim, anjos musculosos,
demônios com argumentos, alguma arquitetura do excesso. Mas não. Tinham lhe
dado corredor, senha e espera. A eternidade, afinal, conhecia os métodos da
repartição.
Quando chegou ao balcão, a
mulher do outro lado ergueu os olhos com o cansaço de quem já vira todas as
desculpas e nenhuma surpresa.
— Documento?
— Não me deram.
— Natural.
Ela puxou para perto um livro
grosso, encapado em couro sem brilho. Não abriu de imediato. Pousou a mão sobre
a capa, como quem faz um favor ao silêncio.
— Nome?
Ele disse.
Ela passou os dedos por uma
página que parecia não estar ali e assentiu.
— Sim.
Aquilo o irritou.
— “Sim” o quê?
— O suficiente.
Ela virou uma página
inexistente. Seu gesto era tão prático que a humilhação ganhou verniz de
rotina.
— Aqui consta impaciência
habitual, bondades intermitentes, alguma covardia de uso doméstico, vaidade bem
administrada para parecer modéstia, e um conjunto razoável de afetos mal
devolvidos.
— Mal devolvidos?
— Recebeu mais do que soube
restituir.
Ele soltou um riso seco.
— Isso vale para todo mundo.
— Exatamente por isso temos
fila.
Ela continuou.
— Vejo também frases ditas no
tom errado, mesmo quando o conteúdo era aceitável. Ausências justificadas por
cansaço, mas nem sempre por cansaço. E este item recorrente aqui...
Ela aproximou o rosto como
quem conferia um detalhe pequeno:
— ...preferência por se
ofender antes de compreender.
Ele ia responder, mas percebeu
que seria inútil e, pior, confirmaria a anotação.
A mulher fechou o livro com
delicadeza. Aquilo o assustou mais do que um golpe seco. Havia certa piedade no
cuidado, e piedade, ele descobria, era mais difícil de suportar do que
severidade.
— E agora? — perguntou.
Ela apontou para o lado
esquerdo, onde havia outra fila, um pouco mais estreita e talvez ainda mais
lenta.
— O senhor segue.
— Para onde?
— Para o que ainda pensa de
si.
Ele não se moveu.
— Só isso?
Ela enfim sorriu, não por
simpatia, mas por familiaridade com o espanto alheio.
— O senhor queria o quê?
Trombetas?
Ele não respondeu.
Queria, sim.
Queria uma cena maior. Uma
condenação eloquente. Um juiz com voz de trovão ou um demônio que lhe
reconhecesse o talento desperdiçado. Queria ser chamado a responder por algo
com mais brilho. Em vez disso, davam-lhe o inventário miúdo da alma: pequenas
crueldades, preguiças morais, negligências de estimação. Era insuportável ser
julgado pelas sobras.
Voltou à fila da esquerda.
Ali as pessoas pareciam menos
tensas e mais abatidas. Como se já tivessem compreendido o essencial: não se
tratava de inocência nem de culpa, mas de convivência. Cada um recebia o
tamanho exato de si mesmo, sem metáfora que aliviasse.
Um senhor muito magro, de
gravata desbotada, aproximou-se o suficiente para comentar em voz baixa:
— No começo a gente pensa que
isso aqui é castigo.
— E não é?
O velho deu de ombros.
— Depois parece contabilidade.
Mais adiante, costume.
— E no fim?
O homem ajeitou a gravata,
pensou um pouco, e seu rosto assumiu uma expressão quase travessa.
— No fim a gente percebe que
viveu assim a vida toda. Só mudaram as placas.
Aquilo teve sobre ele o efeito
de um tapa manso. Olhou novamente ao redor. Era verdade. A mulher apertando o
passado nas mãos parecia todas as mulheres que aguardara em consultórios,
velórios, estações. O homem do terno, limpando os óculos pela décima vez,
lembrava tantos outros homens ocupados em parecer decentes para não olhar
direto o próprio medo. A senhora que cochilava em pé talvez tivesse passado a
vida inteira esperando menos sentada do que os outros.
As portas também lhe pareceram
familiares. Promessas Feitas em Voz Baixa poderia muito bem ser o nome do seu
casamento. Culpa Mal Declarada, o da relação com o pai. Orgulho de Pequeno
Porte, a legenda de metade dos seus dias.
Sentiu vontade de rir.
Não porque houvesse graça, mas
porque a falta dela chegara a um ponto de refinamento tão perfeito que quase
produzia humor. Um humor sem alegria, feito da exatidão do ridículo. Era isso,
afinal, o que havia de humano em todas aquelas almas ordeiras: ninguém fora
grande o suficiente para merecer tragédia integral, nem leve o bastante para
escapar do inventário. Todos ali tinham sido apenas pessoas, com sua coleção de
delicadezas falhadas.
Avançou mais alguns passos.
Em determinado momento, a fila
passou diante de uma porta aberta. Lá dentro, uma moça jovem repetia em voz
baixa a mesma frase, como quem tenta corrigir um erro antigo pela insistência:
“Eu não quis dizer daquela forma”. Havia ternura e exaustão naquele exercício
inútil. Numa sala adiante, um homem muito elegante tentava provar, a ninguém
visível, que suas pequenas deslealdades tinham sido “circunstanciais”. Em
outra, uma mulher dobrava e redobrava um lenço já perfeitamente dobrado, com o
zelo desesperado de quem passara a vida pondo ordem onde o coração vazava.
Ele seguiu adiante.
Começou então a notar uma
coisa ainda mais incômoda: ninguém parecia completamente desesperado.
Aborrecidos, sim. Envergonhados, muitas vezes. Cansados quase todos. Mas
desesperados, não. Como se a visão nítida de si mesmo doesse menos do que o
medo dela.
Isso o contrariou.
Tinha imaginado horrores mais
decisivos.
No fundo, talvez esperasse
encontrar uma justificativa para a própria desordem. Uma força externa. Um
veredicto excessivo. Uma beleza dramática que desse importância ao que vivera.
Mas ali lhe ofereciam somente proporção. E a proporção é sempre humilhante para
quem se imaginou mais singular do que era.
Quando sua vez chegou ao
segundo balcão, encontrou um homem magro, com mangas arregaçadas e semblante
administrativo. Nada de asas. Nada de chifres. Tinha o rosto de alguém que
saberia consertar uma gaveta emperrada.
— Ficha.
Ele entregou o metal.
O homem examinou o número,
anotou qualquer coisa num livro estreito e devolveu a chapa.
— Pode prosseguir.
— Só isso?
— O que o senhor esperava?
Ele quase repetiu: trombetas.
Não repetiu.
— Alguma instrução.
O homem pensou.
— Evite adornar demais o que
foi mesquinho. Isso atrasa.
— E melhora?
— Não muito. Mas atrasa.
Guardou a chapa no bolso.
Dessa vez não voltou
imediatamente à fila. Deu meio passo para o lado. Quis testar o limite daquilo
tudo. Ninguém o chamou. Ninguém protestou. Nenhuma sirene. Nenhum braço de fogo
o puxou de volta.
Ficou parado, olhando.
Foi então que percebeu o mais
desolador: a fila não prendia ninguém. As pessoas é que voltavam para ela. Umas
por hábito, outras por lucidez, outras simplesmente porque já não sabiam andar
sem medir o peso do que carregavam. Havia inclusive quem saísse alguns metros,
respirasse, endireitasse a roupa, e retornasse com uma compostura nova, quase
agradecida.
A liberdade, pensou ele, era o
nome mais elegante do nosso círculo.
Olhou para a ficha de metal em
sua mão. O número torto brilhava pouco. Parecia menos um castigo do que um
apelido íntimo.
Ao longe, uma campainha tocou
com a modéstia de quem anuncia o próximo sem acreditar em novidades. Uma mulher
ajeitou os cabelos antes de entrar em Omissões Reincidentes, como se fosse ser
vista por alguém importante. Um senhor consultou o relógio parado. Outro coçou
a cabeça com impaciência respeitosa. Um rapaz sorria sozinho, provavelmente
lembrando alguma tolice cometida com convicção juvenil. A senhora cochilando em
pé enfim abriu os olhos, olhou em volta e murmurou, sem amargura:
— Ainda isso.
Ele quase sorriu.
Havia mesmo alguma coisa de
cômico em toda aquela solenidade aplicada ao fracasso ordinário. O humano
talvez fosse isso: uma criatura capaz de estragar o que ama, justificar o
estrago com frases aceitáveis e, ainda assim, ajeitar a gola antes da próxima audiência.
Guardou a ficha no bolso do
casaco.
Poderia ter ido embora. Talvez
houvesse saída. Talvez houvesse ruas, árvores, outra paisagem menos
constrangedora. Mas desconfiou, com um cansaço lúcido, de que sair dali seria
apenas reaparecer noutro corredor com nomes diferentes. Repartições mudam de prédio;
a cobrança, não.
Então voltou a andar.
Não exatamente na fila. Também
não fora dela.
Avançava ao lado, às vezes
tocando o fluxo, às vezes se afastando um pouco, como fazem os que já
entenderam tarde demais que não há absolvição grandiosa para vidas pequenas,
mas tampouco condenação bastante para explicar o estrago.
À medida que seguia, o
corredor parecia crescer, não em comprimento, mas em familiaridade. Ele já
conhecia aquele lugar. Tinha estado ali nas salas de espera de hospital, nas
conversas interrompidas por orgulho, nas mesas onde se pediu desculpa pela metade,
nos amores mantidos por inércia, nos dias em que prometera mudar só para dormir
em paz.
Era isso. Não um outro mundo.
Apenas o avesso meticuloso
deste.
E, diante dessa descoberta tão
pouco sublime, ele soltou um riso curto, quase educado, como convém aos lugares
onde até o absurdo pede compostura.
Depois ajustou o casaco nos
ombros e seguiu.
Como quase todo mundo.
Silvia Marchiori Buss
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