Onde o Instante se Basta
Chamam de autotélio(autotélico) aquilo que não precisa ir além de si para existir.
Mas, fora da palavra, isso quase não tem nome.
Acontece quando alguém
permanece um pouco mais do que o necessário.
Quando a mão não larga o livro mesmo depois da última linha.
Quando a música termina e ninguém corre para a próxima.
Há um tipo de gesto que não se
oferece a ninguém.
Não pede retorno, não se organiza em função de um depois.
Ele acontece e fica — inteiro no próprio instante.
Num tempo em que tudo parece
precisar servir para alguma coisa,
o que não serve causa estranheza.
Como se fosse desperdício.
Como se fosse falha.
Mas não é.
Há um valor quieto em fazer
algo que não se transforma em resultado.
Em sustentar um momento que não será contado, nem repetido, nem provado.
Algo que não se arquiva.
Talvez seja por isso que
certos instantes passam quase despercebidos:
porque não deixam marcas úteis.
Não constroem narrativa.
Não melhoram nada.
E, ainda assim, ficam.
Ficam de um jeito difícil de
explicar,
como uma presença que não precisa se justificar.
Como um corpo que ocupa o espaço sem querer ser visto.
Como uma respiração que não precisa ser lembrada para continuar.
Há uma espécie de integridade
nisso.
Uma recusa silenciosa em transformar tudo em meio.
Nem tudo precisa levar a algum
lugar.
Algumas coisas são apenas isso que são —
e talvez sustentem mais do que aquilo que promete chegar.
Silvia Marchiori Buss
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