Somos Sós Dentro da Própria Pele

 

Somos sós dentro da própria pele...

Sim. E o pior não é a solidão.

É a impossibilidade de fuga.

Somos sós dentro da própria pele — não como quem está abandonado, mas como quem está irremediavelmente contido. Não há porta. Não há intervalo. Não há descanso de si.

O mundo inteiro pode encostar em você — mãos, vozes, promessas, corpos — e ainda assim há um núcleo onde ninguém chega. Um ponto mudo, fechado, que não se traduz.

É ali que a vida realmente acontece.

E é ali que ninguém testemunha.

O amor tenta. Chega perto, às vezes muito perto. Aprende os contornos, decora gestos, antecipa silêncios. Mas sempre esbarra nesse limite invisível onde tudo se desfaz em superfície.

Não por falha.

Por natureza.

Penso que existir é uma experiência sem compartilhamento total. Uma travessia que até pode ser acompanhada, mas nunca dividida.

E o corpo sabe.

Por isso há momentos em que tudo irrita — a conversa, o toque, a presença do outro — não porque o outro seja insuficiente, mas porque ele nunca será suficiente para ocupar esse espaço que é só seu.

Um espaço sem nome.

Sem testemunha.

Sem tradução.

Há quem tente anestesiar isso — ruído, rotina, distração, relações que ocupam o tempo como quem tapa uma fenda. Funciona por um tempo. Às vezes por anos.

Até que algo falha.

E então vem aquele instante limpo, quase cruel, em que você percebe: ninguém nunca esteve exatamente onde você está agora.

Nem nunca estará.

Não é desespero.

Mas também não é consolo.

É uma verdade áspera, que não acolhe nem empurra — apenas permanece.

E, de algum modo estranho, é ali que começa uma outra forma de presença.

Não mais a busca de ser preenchido.

Mas a coragem de não se abandonar dentro de si.

Silvia Marchiori Buss

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