Enquanto a Coruja pia
Havia uma demora dentro da casa que não vinha do relógio.
Como se alguma coisa tivesse sido interrompida no meio de um gesto — e ninguém
tivesse voltado para terminar.
A
luz seguia acesa sem motivo claro.
O livro aberto sobre a mesa não era lido havia tempo, embora permanecesse ali,
obediente, como se ainda esperasse olhos que já não se demoravam. Um copo pela
metade, um prato limpo demais. Pequenos excessos de silêncio ocupando os
lugares do que antes era uso.
Yvi
estava sentada, mas não exatamente presente.
O corpo alinhado à cadeira, as mãos próximas do livro, tudo no lugar — menos
ela.
Foi
então que o som atravessou a noite.
Um
som seco, repetido, como quem marca um tempo que ninguém pediu para contar. Não
era alto, mas insistia. De algum ponto da árvore — a mais antiga do terreno, de
tronco grosso e casca ferida — vinha aquele chamado que atravessava a noite sem
pedir licença.
Dentro
da casa, nada reagiu de imediato.
A luz permaneceu acesa. O livro aberto. O copo pela metade. Como se o som não
tivesse sido suficiente para alterar o que já estava suspenso.
O
chamado veio de novo.
Yvi
ergueu os olhos, não para a janela, mas para o reflexo no vidro. À noite, o
vidro devolvia mais do que mostrava. Era um rosto cansado, sim, mas havia outra
coisa ali — uma espécie de atraso, algo que não acompanhava o tempo do resto do
corpo.
Ela
se levantou sem pressa.
Não por calma, mas por falta de urgência em qualquer direção.
Abriu
a porta dos fundos, e o ar frio entrou como quem já conhecia o caminho.
O
quintal permanecia intacto demais.
A
cadeira ainda no mesmo lugar, levemente inclinada. O pano esquecido sobre o
varal, endurecido pelo tempo. O vaso quebrado perto da cerca, com a terra
espalhada que ninguém recolheu. Pequenos sinais de uma interrupção antiga, como
se alguém tivesse saído no meio de um gesto e não voltado.
O
som continuava.
Yvi
caminhou até a cadeira. Tocou o encosto com a ponta dos dedos, como quem
confirma matéria. Sentou-se. O corpo reconheceu antes do pensamento — aquela
posição, aquele ângulo de olhar para o terreno vizinho, para a árvore, para o
recorte de céu entre os galhos.
Foi
ali.
Não
como lembrança inteira.
Não como cena que se organiza.
Mas
como um deslocamento.
Uma
noite muito parecida — ou talvez a mesma. O mesmo som insistente atravessando o
escuro. A mesma cadeira. E alguém ocupando o espaço ao lado, com um silêncio
que não pesava. Um silêncio que era presença.
Yvi
não fechou os olhos.
Deixou que a ausência se acomodasse sem nome.
O
som pareceu mais próximo — ou ela apenas deixou que fosse. A ave não se
mostrava. Permanecia fora de alcance, sustentando-se apenas pelo que repetia.
Como certas coisas que não precisam aparecer para permanecer.
Então
ela fez um movimento pequeno.
Arrastou
a outra cadeira.
O
som da madeira raspando o chão atravessou o quintal com uma nitidez que não
combinava com a noite. Parou ao lado dela, alinhada, como antes. Não olhou. Não
era necessário conferir.
Ficou
assim.
Duas
cadeiras.
Um quintal interrompido.
Um som que não cessava.
A
casa, atrás, seguia acesa.
Yvi
levou o copo até a boca, mesmo sabendo que estava vazio. O gesto não era sede.
Era outra coisa — algo que precisava ser concluído, mesmo sem resultado. Depois
deixou o copo onde estava, como se ainda houvesse algo dentro.
O
som veio outra vez.
E
dessa vez não parecia chamar.
Parecia
responder.
Yvi
virou levemente o rosto para o lado vazio, como se alguém tivesse dito algo
baixo, quase inaudível. Não houve surpresa. Nem susto. Apenas uma escuta que
não exigia confirmação.
O
tempo ali não avançava.
Apenas
permanecia.
Até
que, sem anúncio, ela se levantou.
Não
apagou a luz da casa.
Não recolheu o pano.
Não tocou no vaso quebrado.
Caminhou
em direção à árvore.
Devagar
— não por hesitação, mas como quem atravessa algo que já estava acontecendo há
muito tempo.
O
som cessou.
O
quintal permaneceu.
Duas
cadeiras.
E
a casa acesa, sustentando aquilo que ainda não tinha saído — ou aquilo que
talvez nunca tivesse ido embora.
Silvia
Marchiori Buss
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