Pecado Compartilhado
Na rua de trás do mercado, aonde o movimento chegava cansado e sem pressa, havia um banco de madeira encostado num muro baixo. Era ali que tudo acontecia — sem nunca parecer que acontecia nada.
Ela costumava chegar
primeiro.
Não olhava o relógio, mas
sabia a hora exata em que o sol começava a escorregar pela parede descascada ao
lado. Sentava-se sempre na mesma ponta, como se deixasse um espaço calculado
para algo que ainda não tinha forma.
Ele vinha depois.
Sem anúncio. Sem atraso.
Apenas surgia, como se tivesse estado ali o tempo todo e só agora se deixasse
ver.
No começo, não conversavam.
Dividiam o banco como quem
divide sombra. Cada um ocupado com o próprio silêncio, sem a obrigação de
torná-lo leve. Às vezes, ele acendia um cigarro. Às vezes, ela observava o
movimento mínimo das folhas no chão. E isso bastava.
Havia uma espécie de acordo
mudo naquela convivência: não perguntar, não explicar, não avançar.
Foi por isso que, quando
começaram a falar, demoraram a perceber.
Vieram frases curtas, quase
tímidas. Comentários sobre o calor, sobre a padaria da esquina, sobre uma chuva
que talvez viesse. Nada que exigisse continuidade. Nada que deixasse marcas.
Mas as pausas cresceram.
E dentro delas, alguma
coisa começou a se acomodar.
Não foi o toque que mudou
tudo.
Foi o dia em que ele não
veio.
Ela se sentou no banco como
sempre, ocupou seu lugar com a precisão de quem repete um gesto já incorporado
ao corpo. Esperou sem chamar de espera. Olhou a rua, o muro, o mesmo pedaço de
céu recortado entre fios.
Ficou mais tempo do que o
habitual.
No dia seguinte, voltou.
E no outro também.
Quando ele reapareceu, não
houve pergunta. Nenhum dos dois mencionou a ausência. Ele se sentou como antes,
acendeu o cigarro como antes, olhou o movimento como antes.
Mas já não era igual.
Havia entre eles um
conhecimento novo: o de que aquilo podia desaparecer sem aviso.
E foi essa possibilidade
que os aproximou.
O primeiro gesto veio sem
pressa. Um toque breve, quase distraído, como se testassem a superfície de algo
que não conheciam bem. Não houve recuo. Nem avanço imediato.
Só uma permanência
ligeiramente mais próxima.
Depois disso, o banco
deixou de ser apenas um lugar.
Passou a ser um intervalo.
Ali, eles não eram ninguém
em particular. Não precisavam sustentar histórias, nem responder por escolhas
feitas em outros lugares. O mundo continuava do lado de fora, com suas
exigências intactas, mas ali havia uma suspensão — curta, frágil, suficiente.
Não falavam sobre o que
faziam quando não estavam ali.
Nem sobre quem os esperava.
Nem sobre o que poderia
acontecer se aquele pequeno espaço deixasse de existir.
Era como se soubessem que
nomear qualquer coisa quebraria o equilíbrio.
E, ainda assim,
permaneciam.
Às vezes, ele chegava com
pressa e ia embora antes do tempo. Às vezes, ela ficava além do necessário,
mesmo depois que ele saía. O banco guardava essas diferenças sem julgamento.
Com o tempo, começaram a
reconhecer os sinais.
O modo como ele encostava a
mão mais perto do que antes.
A forma como ela não se
afastava.
O silêncio que já não era
apenas ausência de palavras, mas escolha.
Não havia promessa.
Nem intenção de construir
algo além dali.
Mas também não havia
distância suficiente para chamar aquilo de acaso.
Talvez o erro não estivesse
no que faziam.
Mas no que permitiam
continuar.
Porque era ali, naquele
pedaço de tarde roubado de outras vidas, que algo encontrava lugar sem precisar
de explicação.
E isso — mais do que
qualquer gesto — era o que compartilhavam.
O resto seguia.
A rua, o mercado, o tempo.
E o banco permanecia,
guardando o que nunca chegou a se tornar inteiro — mas também nunca deixou de
existir.
Silvia Marchiori Buss
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