Não Lhe Prometo Sol Nem Lua Cheia
Ele disse isso sem levantar a voz, como quem coloca um copo na mesa e sabe que alguém vai encontrar depois.
Não lhe prometo sol nem lua
cheia.
Ela não respondeu. Havia
coisas que, quando ditas assim, sem enfeite, não pediam resposta — pediam
espaço. E ela ficou ali, ocupando o espaço entre as palavras dele, como se
coubesse inteira naquele intervalo.
Era fim de tarde, mas não
daquele tipo bonito que se descreve. A luz vinha meio atravessada, pegando os
móveis de lado, revelando poeiras antigas que ninguém mais limpava direito. A
casa tinha esse cansaço de quem já foi muito habitada.
Ele estava de pé, perto da
janela que não fechava bem. O vento entrava fino, insistente, mexendo na
cortina como se procurasse alguma coisa que não estava mais ali.
— E o que você promete? —
ela perguntou depois de um tempo que não dava para medir.
Ele demorou. Não porque
pensasse muito, mas porque parecia escutar outra coisa antes de responder.
Talvez o rangido do assoalho, talvez o próprio peito.
— Prometo não inventar o
que não sinto.
Ela riu, mas não de graça.
Foi um riso curto, desses que nascem mais do reconhecimento do que da alegria.
Sentou-se na cadeira mais
próxima, aquela com uma das pernas levemente mais curta, que fazia um barulho
seco toda vez que alguém mudava de posição. Ela gostava daquela imperfeição —
era honesta.
— Isso é pouco — disse,
olhando para as mãos.
— É o que tenho.
O vento aumentou um pouco,
como se quisesse participar. Levantou um papel esquecido sobre a mesa, derrubou
outro no chão. Nada dramático, só o suficiente para lembrar que as coisas nunca
ficam exatamente onde deixamos.
Ela pensou nas promessas
que já tinha ouvido. Algumas vinham cheias de brilho, outras de urgência,
outras de uma certeza que parecia sólida demais para ser verdadeira. Todas, em
algum momento, tinham desbotado.
Ele não prometia luz. Não
prometia permanência. Não prometia sequer um depois.
E, ainda assim, havia algo
ali que não escorregava.
— E se chover? — ela
perguntou, quase sem perceber.
— Vai molhar.
Ela levantou o rosto. Pela
primeira vez desde que ele começara a falar, olhou direto para ele. Não havia
defesa no jeito dele dizer as coisas. Também não havia abrigo.
Talvez o que a prendia não
fosse o que ele oferecia, mas o que ele se recusava a fingir.
Ela se levantou devagar,
caminhou até a janela. O vento bateu mais forte agora, abrindo a cortina por
inteiro, deixando entrar um ar frio que arrepiava a pele.
Lá fora, nada de especial
acontecia. Algumas pessoas passavam, um carro ao longe, uma árvore insistindo
em ficar de pé apesar das rajadas.
— Ficar também é uma
escolha — ela disse, mais para o vidro do que para ele.
Ele não respondeu.
E não era ausência. Era o
modo dele de não ocupar mais do que precisava.
Ela apoiou a mão no batente
da janela, sentindo a madeira gasta sob os dedos. Pensou em ir. Pensou em
ficar. Pensou que, dessa vez, não havia promessa nenhuma para se apoiar — e,
estranhamente, isso não a assustava como antes.
O vento entrou de novo,
mais frio.
Ele continuava ali, sem
avançar, sem recuar.
Como quem não segura.
Como quem também não
empurra.
E, entre os dois, o espaço
seguia aberto, respirando devagar, sem dizer ao certo o que faria deles.
Silvia Marchiori Buss
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