Quando a Chuva Molha e Machuca
A chuva começou sem muito barulho. Começou quase sem avisar...
Fina, quase leve, dessas que parecem não pedir abrigo. A cidade seguiu — passos
apressados, portas se fechando, gente se protegendo do que, à primeira vista,
não parecia grande coisa.
Ela não correu.
Caminhava como quem não precisa chegar, apenas continuar. O casaco já
escurecido pela água, o cabelo preso à testa, os sapatos absorvendo o dia com
um desconforto lento.
Foi numa rua comum que o corpo reconheceu antes do pensamento.
Uma padaria ainda acesa, o banco de sempre, a calçada que já tinha sido cenário
de outra coisa — riso, talvez, ou promessa. Nada ali indicava importância, mas
havia.
A chuva mudou ali.
Não no céu.
Nela.
As gotas passaram a encontrar lugares mais fundos, onde o tempo não encosta com
frequência. Não era dor grande. Era exata.
Ela reduziu o passo.
Ao redor, ninguém via. Cada um ocupado em atravessar o próprio dia, desviando
da água como quem evita atraso. Havia uma pressa que não era dela.
A chuva continuava.
E, com ela, pequenas lembranças surgiam sem ordem — um gesto que ficou no meio,
uma frase que não chegou inteira, um silêncio que ficou maior do que devia.
Coisas mínimas. Quase invisíveis.
Mas o corpo guarda.
E reconhece.
A água escorria pelo rosto, misturando o que vinha do céu com o que já estava
ali antes. Ela não limpou. Deixou que seguisse.
Havia cansaço, mas não surpresa.
Como se aquilo já estivesse marcado em algum lugar, apenas esperando um dia
como aquele — sem defesa suficiente, sem distração.
Passou por uma vitrine e se viu quebrada pelo vidro molhado. Não inteira. Nunca
inteira. Mas suficiente.
A chuva não aumentava, não diminuía. Permanecia.
E ela também.
Seguiu caminhando, sem tentar apressar o que pedia tempo. A roupa pesava. Os
passos, não.
Não havia resposta.
Nem alívio.
Apenas uma mudança difícil de nomear — como se algo tivesse sido tocado no
lugar certo, ainda que doesse.
A rua continuava a mesma.
Ela não.
E a chuva, insistente, seguia caindo como quem sabe exatamente onde tocar.
Silvia
Marchiori Buss
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