O Barulho do Meu Silêncio

Ela acordava às quatro e dezessete. Não precisava de despertador. O corpo abria os olhos como quem atende a um chamado que não vem de fora.

A casa ainda estava inteira no escuro. O prédio, quieto. Só o elevador, às vezes, gemia lá embaixo, como se alguém também tivesse perdido o sono.

Ela ficava deitada por alguns minutos, olhando o teto que mal se distinguia da sombra. Havia uma pequena rachadura perto do canto. Conhecia o desenho dela de memória. Seguia com os olhos aquela linha torta como se fosse um caminho.

Quando levantava, o chão estava frio. A cozinha guardava o cheiro do café do dia anterior. Ela não acendia todas as luzes — deixava apenas a do fogão, fraca, suficiente para não tropeçar na própria rotina.

O silêncio da casa não era vazio. Tinha pequenos ruídos: a madeira dilatando, a água descendo em algum encanamento distante, o motor da geladeira iniciando e parando. E, por baixo disso tudo, havia outra coisa.

Uma vibração que não vinha dos objetos.

Durante o dia, ela falava. Respondia. Concordava. Perguntava. O som da própria voz lhe parecia correto, ajustado ao ambiente. Sabia rir quando era preciso, sabia endurecer o tom quando a conversa exigia firmeza. Não havia falhas aparentes.

Mas entre uma frase e outra, algo permanecia sem atravessar a boca.

Era isso que fazia barulho.

Não era uma grande revelação guardada, nem um segredo dramático. Eram coisas pequenas. Uma opinião interrompida no meio. Um “não” que virou “tanto faz”. Uma vontade que perdeu a vez. Cada gesto desses produzia um som mínimo, quase imperceptível — como quando um copo fino trinca por dentro sem se partir por fora.

Ela começou a notar esse ruído há anos. Primeiro, pensou que fosse cansaço. Depois, que fosse apenas o hábito de engolir palavras para manter a harmonia da sala. Com o tempo, percebeu que o silêncio dela tinha peso próprio.

À tarde, quando a luz entrava de lado pela janela e desenhava poeira no ar, ela  sentava na cadeira da cozinha e ficava parada. Não fazia nada. Não mexia no telefone. Não ligava a televisão.

Ficava.

Era nesse instante que o barulho aumentava.

Vinha em forma de lembrança curta: uma conversa que terminou antes do necessário. Um olhar desviado. Uma frase que ela ensaiou dizer e guardou no bolso como um papel amassado.

Ela não dramatizava isso. Continuava a vida. Pagava contas. Organizava gavetas. Trocava a roupa de cama. Comprava frutas que amadureciam rápido demais.

Mas havia dias em que o silêncio parecia ocupar mais espaço que os móveis.

Numa noite, ao desligar a última luz, percebeu que não era tristeza o que escutava. Nem arrependimento exato. Era acúmulo.

O silêncio dela era feito de camadas sobrepostas. Cada uma tão fina que ninguém perceberia. Juntas, produziam um som grave, contínuo — como o de um motor distante que nunca desliga completamente.

Ela deitou.

O quarto escuro respirava junto com ela.

E ali, sem testemunha, o barulho do próprio silêncio se espalhava pelo corpo inteiro, não para pedir saída, mas para lembrar que estava vivo.

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Silvia Marchiori Buss

 

 

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