O Peso da Saudade

A casa de Laura tinha um silêncio particular.

Não era o silêncio das casas abandonadas, onde o pó se acumula e as portas rangem com o vento. Era um silêncio mais doméstico, feito de pequenos sons que ainda insistiam em existir: o relógio da sala marcando os segundos com uma paciência infinita, a chaleira que às vezes estalava sozinha no fogão já desligado, o leve arrastar da cortina quando o ar da tarde entrava pela janela.

Laura morava ali havia muitos anos. Tempo suficiente para que os móveis se acomodassem à sua maneira de passar pelos cômodos. Tempo suficiente para que cada objeto soubesse, sem esforço, o lugar onde deveria estar.

Na estante da sala havia livros que já não eram abertos com frequência. Alguns tinham anotações nas margens, escritas com uma letra que parecia mais firme do que a de agora. Entre eles, uma fotografia antiga — duas pessoas sentadas num banco de praça, inclinadas uma para a outra como quem compartilha um segredo qualquer.

Laura raramente olhava diretamente para a fotografia. Ela apenas sabia que estava ali.

Nas tardes mais longas, sentava-se perto da janela com uma xícara de café que esfriava devagar entre as mãos. A rua diante da casa não era muito movimentada. Passava uma bicicleta de vez em quando, um cachorro puxando o dono pela coleira, um carro antigo que parecia sempre atrasado.

Havia dias em que o céu ficava tão claro que tudo parecia suspenso.

Nesses momentos, Laura tinha a impressão de que a casa respirava.

Não era tristeza exatamente o que vinha. Nem alegria. Era algo mais difícil de nomear, uma presença leve que atravessava a memória como uma brisa atravessa um quarto aberto.

Ela lembrava de gestos pequenos.

De alguém que caminhava pela casa assobiando uma música que nunca terminava. De uma cadeira que rangia sempre no mesmo ponto do chão. De um modo particular de abrir as janelas todas ao mesmo tempo, como se a casa precisasse de ar para continuar existindo.

Essas lembranças não chegavam com peso.

Chegavam quase como quem pede licença.

Laura às vezes pensava que a saudade era uma coisa estranha. Esperava-se dela um peso enorme, algo que esmagasse os dias. Mas o que vinha, na maioria das vezes, era diferente.

Era leve.

Leve como um cheiro antigo de café passado.

Leve como o som distante de passos num corredor.

Certa tarde, ao limpar a estante, um livro escorregou de suas mãos e caiu aberto no chão. Dentro dele havia um bilhete dobrado, esquecido há tanto tempo que o papel já começava a amarelar nas bordas.

Laura não abriu o bilhete.

Ficou olhando para ele por alguns segundos, como quem reconhece um visitante antigo.

Depois o colocou de volta entre as páginas.

Não por medo. Nem por coragem.

Apenas porque algumas coisas parecem mais inteiras quando permanecem quietas no lugar onde o tempo as deixou.

A tarde avançava devagar.

Lá fora, alguém passou pela rua falando alto ao telefone. Um cachorro latiu duas vezes e depois desistiu.

Laura voltou à janela com o café já frio.

Do lado de dentro da casa, tudo estava no mesmo lugar de sempre. O relógio seguia contando o tempo com a mesma calma de anos. A fotografia permanecia inclinada entre os livros.

Ela respirou fundo.

E por um instante teve a impressão de que a casa estava um pouco mais cheia do que parecia. Não de gente.

Mas de algo quase invisível — essa presença discreta que às vezes acompanha quem ficou.

Uma presença que não pesa como se imagina.

Uma saudade que atravessa o dia como luz atravessa uma cortina fina: quase sem tocar, quase sem pedir.

Apenas passando.

E ficando ali, leve, no meio da tarde.

 

Silvia Marchiori Buss

 

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