Depois da Ferida Vem a Casca
Há dias que passam pela vida quase sem deixar marca.
Dias
leves.
Leves como o pó do vento atravessando o espaço entre duas cortinas claras, que
se tocam e se afastam devagar, como se conversassem em silêncio.
Nesses dias, tudo parece caber dentro do peito sem esforço. O café não esfria
esquecido, o telefone não pesa, as lembranças caminham sem ferir.
A
vida segue como quem caminha por um chão conhecido.
Mas
há outros dias.
Dias
em que parece que pisamos em cascalho quente.
Cada passo estala sob os pés, áspero, desconfortável, como se o mundo tivesse
perdido a delicadeza.
O corpo fica mais pesado dentro da própria roupa.
O ar entra curto.
Ninguém
vê.
De
fora, tudo continua igual: a casa de pé, as cadeiras no lugar, as portas
abrindo e fechando como sempre abriram.
Mas dentro de alguém existe uma pequena ferida aberta, dessas que não sangram
para fora, mas ardêm por dentro como brasa esquecida.
A
ferida pode ter vindo de muitas coisas.
Uma
palavra que chegou tarde demais.
Uma ausência que não se acostuma a ser ausência.
Um dia que terminou de um jeito que ninguém havia imaginado.
No
começo, dói.
Dói
como quando a pele se rompe e ainda não sabe o que fazer com aquilo.
A vida continua passando, as pessoas seguem falando de assuntos comuns, mas
dentro daquele lugar ferido tudo fica mais silencioso.
É
então que o tempo começa seu trabalho invisível.
Não
com pressa.
Nunca com pressa.
Primeiro
vem uma sensibilidade estranha.
Qualquer toque parece demais.
Qualquer lembrança parece funda demais.
Depois,
quase sem que se perceba, a pele decide se proteger.
Forma-se
a casca.
Não
é beleza.
Não é solução.
É defesa.
A
casca nasce devagar sobre a ferida, áspera, imperfeita, mas necessária.
Ela guarda o que ainda não pode ser tocado.
Ela protege aquilo que ainda está aprendendo a sobreviver.
Por
algum tempo, a vida segue assim:
um pouco de vento leve entre cortinas,
um pouco de cascalho quente sob os pés.
Há
dias em que a casca repuxa.
Outros
em que quase se esquece que ela existe.
E
então chega uma manhã comum — dessas sem anúncio — em que a pessoa passa pela
própria vida e percebe algo estranho.
A
dor já não ocupa o mesmo lugar.
Ainda
existe memória.
Ainda existe saudade.
Mas já não arde como antes.
Porque
sob a casca, silenciosamente, a pele fez o que sabe fazer desde o início do
mundo:
recomeçar.
Não
volta a ser a mesma pele.
Nunca volta.
Mas
volta a ser pele.
E
é assim que a vida segue:
entre dias leves como o pó do vento atravessando duas cortinas
e dias duros como cascalho quente.
Entre
feridas.
E
cascas.
Silvia
Marchiori Buss
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