As Águas de Março e o Que Fica

As águas de março sempre chegam como quem sabe o caminho.

Não pedem licença — apenas caem, escorrem, atravessam os dias e vão fechando o verão com uma espécie de despedida bonita, dessas que não fazem barulho, mas deixam tudo diferente.

Eu aprendi a olhar para esse tempo como quem abre uma caixa antiga.
Não qualquer caixa — uma dessas guardadas com cuidado, onde a gente coloca o que não pode perder.
Um porta-joias da vida.

Porque março, para mim, não é só chuva.
É encontro.

É quando percebo, com mais nitidez, quantas vidas caminham junto comigo.
Filho. Filha. Amigo. Neta. Irmã.
Nomes que não são apenas nomes — são presenças.
São pequenos brilhos que, de tão habituais, às vezes a gente esquece de olhar com o devido espanto.

E então chove.

E é como se cada gota lembrasse:
olha bem o que você tem.

No meio desse cair manso, quase consigo ouvir — como um fundo antigo de rádio —
“É pau, é pedra, é o fim do caminho…”
e tudo parece fazer sentido dentro dessa mistura de começo e fim que março carrega.

Porque é isso também:
“é um pouco sozinho, é um caco de vidro…”
é a vida inteira cabendo em versos simples, atravessando a gente sem pedir explicação.

E eu penso nas minhas pessoas.

No filho que segue seu caminho, mas ainda volta em pequenos gestos.
Na filha que carrega pedaços de mim que nem eu sabia que existiam.
Na neta — ah, a neta — que é como essas chuvas: inesperada, luminosa, capaz de renovar o ar de dentro.
Na irmã, que compartilha raízes, histórias que ninguém mais conhece do mesmo jeito.
E no amigo, esse laço escolhido, que resiste ao tempo como quem sabe que ficar também é um ato de coragem.

São vidas que não fazem alarde, mas sustentam.
Como joias guardadas em silêncio, como obras protegidas em um relicário invisível — desses que a gente carrega por dentro.

E então março passa.
Como sempre passa.

Mas antes de ir, ele deixa esse recado espalhado nas ruas molhadas, nas tardes nubladas, no cheiro de terra que sobe sem aviso:

“São as águas de março fechando o verão…”

E, no meio disso tudo, eu entendo — sem precisar dizer em voz alta —
que há muito mais para agradecer do que para pedir.

Porque há vida ao redor.
E há vida dentro.

E isso, por si só, já é um tipo de eternidade pequena.

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Silvia Marchiori Buss

 

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