Aquilo Que Vive por Dentro

Há dias em que o coração de uma pessoa não é um lugar calmo.

É como uma casa onde muitas coisas continuam vivendo ao mesmo tempo.

Nenhuma bate à porta.
Nenhuma anuncia chegada.

Elas simplesmente estão ali.

Dentro, lembranças caminham pelos corredores como gente antiga que voltou sem avisar. Uma música esquecida aparece no meio da tarde. O cheiro de café lembra uma cozinha que já não existe mais. Uma frase dita anos atrás retorna inteira, como se tivesse ficado guardada atrás de um móvel.

E então alguma coisa começa a se mover.

Não é exatamente tristeza.
Também não é alegria.

É aquilo que vive por dentro.

Por fora, nada parece diferente.
A pessoa responde mensagens.
Arruma a casa.
Cumpre pequenas tarefas do dia.
Sorri quando alguém conta alguma coisa banal.

Mas por dentro pequenas coisas continuam respirando.

Uma saudade que não terminou.
Um gesto antigo que ainda aquece.
Um medo discreto que insiste em permanecer.
Um sonho que parecia esquecido, mas que de vez em quando levanta a cabeça.

O coração de alguém raramente é um lugar simples.

Ele guarda pessoas que já partiram.
Guarda palavras que nunca foram ditas.
Guarda também momentos que ninguém percebeu quando aconteceram: uma tarde tranquila, um vento entrando pela janela, um silêncio bom depois de um dia longo.

Tudo permanece.

É por isso que às vezes alguém se cala no meio de uma conversa.

Não é distração.

É que dentro continuam vivendo coisas que o tempo não levou.

Há despedidas que ainda caminham pelos corredores da memória.
Há alegrias pequenas que continuam acesas.
Há dores que já passaram, mas deixaram uma espécie de eco — como passos suaves numa casa antiga.

Nada desaparece completamente.

Aquilo que foi vivido encontra algum lugar dentro do coração e ali permanece, mudando de forma, envelhecendo junto com o tempo.

Talvez seja por isso que, em certos momentos, alguém apenas encoste na janela por alguns minutos.

Olha o movimento da rua.
Observa uma árvore balançando.
Escuta algum ruído distante da cidade.

E naquele pequeno instante entende algo simples.

Aquilo que vive por dentro não pede ordem.
Não pede explicação.

Apenas continua existindo.

Quieto.
Profundo.

Fazendo do coração um lugar onde muitas vidas ainda respiram.

 

Silvia Marchiori Buss

 

  

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