Ranhuras do que Permanece

 Nada se repete — nem quando parece.

Há uma tendência em tratar as coisas como se voltassem ao lugar exato de antes. Como se houvesse um ponto fixo esperando pacientemente por nós. Não há. O que existe é uma aproximação, às vezes bem feita, às vezes torta, quase sempre silenciosa.

O vaso caiu numa manhã qualquer. Não houve dramatização, nem gesto largo. Caiu como caem certas coisas: por um descuido mínimo, uma distração que ninguém consegue nomear depois. O som foi seco, breve, e terminou rápido demais para caber arrependimento.

Juntar os cacos não foi difícil. Difícil foi reconhecer cada pedaço como parte de algo que já não existia inteiro. Havia bordas que não encaixavam mais com a precisão de antes, pequenas falhas que exigiam um pouco de insistência, outras que pediam desistência imediata. Nem tudo voltou. Nem tudo quis voltar.

Ainda assim, colado, ele permaneceu vaso.

Não o mesmo — isso fica evidente quando a luz bate de lado e revela as linhas finas atravessando a superfície. Há uma espécie de mapa ali, irregular, que antes não existia. Quem passa a mão percebe primeiro: o toque encontra caminhos onde antes havia apenas continuidade. Agora há interrupções discretas, pequenos desvios.

Curiosamente, ele não perde função. Segura água. Sustenta flores. Ocupa espaço como qualquer outro. Mas há um modo diferente de estar. Não é fragilidade — é outra forma de firmeza, menos distraída.

Também muda o entorno. Já não fica na beirada da mesa. Há uma escolha mais cuidadosa do lugar, como se o espaço ao redor tivesse aprendido algo junto com ele. E quem o usa passa a prestar atenção de um jeito que antes não era necessário.

O vaso não voltou a ser o que era. Isso é evidente. Mas também não se tornou outra coisa.

Permaneceu dentro de si, apenas reorganizado.

 

Silvia Marchiori Buss

 

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