As Músicas Que Ficaram Sem Ele

Depois que ele morreu, a casa ficou sem som.

Não foi decisão.
Foi acontecendo.

O rádio permaneceu desligado. A televisão muda. Até os ruídos pequenos — o arrastar de uma cadeira, o abrir de uma gaveta — pareciam exagerados dentro daquele espaço.

Ela passou a se mover com cuidado, como se qualquer barulho pudesse quebrar alguma coisa que ainda restava.

Mas o silêncio cresceu.

Entrava pelos cantos, ficava mais tempo do que devia, acompanhava até os gestos mais simples. Havia momentos em que ele parecia maior do que a própria casa.

Foi por isso que, um dia, ela ligou o som.

Sem escolher muito.
Sem procurar uma música específica.

Apenas ligou.

E deixou.

A canção que veio não tinha nada de especial. Era uma dessas que já tinham passado tantas vezes que ninguém mais prestava atenção.

Mas ela prestou.

Sentou.

Ficou.

Antes, quando uma música começava, ele parava. Não importava o que estivesse fazendo. Havia um instante em que ele se entregava — inclinava a cabeça, fechava os olhos, deixava a letra chegar.

Às vezes sorria, quase imperceptível.
Às vezes ficava em silêncio depois do fim, como se ainda estivesse ali dentro.

Ela conhecia esse tempo.

Não porque observava —
mas porque vivia junto.

Agora, a música atravessava a sala inteira sem encontrar nada.

Ela continuava sentada.

O corpo no mesmo lugar.
As mãos quietas.

Mas não havia gesto do outro lado.
Não havia aquele pequeno atraso depois do fim.

A música terminava… e só terminava.

No dia seguinte, ligou de novo.

Depois, em outros dias.

Sem ritual.
Sem intenção clara.

Às vezes reconhecia a canção. Às vezes não.

Mas, em algumas, vinha um detalhe — um trecho, um jeito de cantar — que fazia lembrar de como ele escutava.

E então vinha esse vazio diferente.

Não o da ausência apenas.

Mas o daquilo que não se repete.

Ela passou a deixar tocar até o fim.

Sem interromper.

Sem procurar outra.

Ficava ali enquanto durava.

E, quando acabava, não havia mais nada para acompanhar.

A casa seguiu com música.

Mas o lugar onde antes cabiam dois…
ficou grande demais para um só.

 

Silvia Marchiori Buss

 

 

 

 

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