Todos os Dias, Outra Vez

 Acordar e não ter você é como nascer todos os dias — sem parteira, sem anúncio, sem ninguém ao lado para confirmar que é mesmo um começo.

Ela já não esperava mais o milagre de abrir os olhos e encontrar o corpo dele ocupando o outro lado da cama. Ainda assim, havia um segundo — curto, quase invisível — em que o mundo hesitava. Um intervalo em que tudo podia ser como antes. Era nesse instante que ela permanecia imóvel, os olhos fechados, como quem segura a respiração para não espantar alguma presença que talvez ainda estivesse ali.

Mas o quarto sempre acabava voltando a ser apenas um quarto.

O lençol frio, o travesseiro sem marca, o silêncio inteiro.

Levantar era outra coisa.

Não tinha mais nada de automático naquele gesto. Não havia rotina que desse conta. Era escolha — dura, repetida, às vezes quase ofensa. Levantar significava aceitar que o dia viria mesmo assim, com ou sem ele, com sol atravessando a cortina ou com a chuva fina que riscava o vidro como se escrevesse alguma coisa que ela não conseguia ler.

Havia manhãs em que o frio parecia morar dentro do corpo, não importava a estação. Em outras, o calor era excessivo, como se o mundo seguisse indiferente, expandido demais para quem ainda tentava caber dentro de uma ausência.

Ela demorava.

Sentava na beira da cama, os pés no chão, sentindo o peso exato do próprio corpo, como quem testa se ainda existe. Às vezes fechava os olhos de novo — não para dormir, mas para ver se o sonho deixara algum resto. Um gesto, uma palavra, um riso atravessando o tempo. Qualquer coisa que pudesse ser guardada no bolso do dia.

Nem sempre vinha.

E ainda assim, ela levantava.

Arrumava a cama com cuidado, não por disciplina, mas por respeito ao que um dia fora compartilhado. Ajeitava o travesseiro dele como se ainda precisasse de forma. Abria a janela — fosse qual fosse o tempo — porque o ar precisava entrar, mesmo quando o peito resistia.

O mundo lá fora não sabia de nada.

As pessoas seguiam. Os carros passavam. Alguém ria na calçada. A vida acontecia com uma naturalidade quase ofensiva. E ela ali, recém-nascida outra vez, tentando entender como se atravessa um dia inteiro quando falta justamente aquilo que dava sentido aos gestos pequenos.

Havia dias melhores.

Dias em que o café tinha gosto. Em que uma música não feria tanto. Em que ela conseguia caminhar sem sentir que deixava pedaços de si pelo caminho. Nesses dias, quase acreditava que havia aprendido alguma coisa sobre continuar.

Mas havia outros.

Dias em que tudo voltava cru, sem aviso. Um cheiro, uma frase, uma lembrança mal posicionada no tempo — e o chão cedia um pouco. Não o suficiente para cair de vez, mas o bastante para lembrar que equilíbrio, agora, era uma invenção diária.

Ainda assim, ela levantava.

Não por coragem. Não por força. Nem por alguma ideia bonita de superação que nunca fez sentido dentro da casa.

Levantava porque ficar também era uma forma de ausência.

E ela já conhecia demais esse lugar.

Então, mesmo sem ele, mesmo sem resposta, mesmo sem garantia de que o dia seria suportável — ela abria os olhos, sentava na beira da cama, e escolhia existir mais uma vez.

Como quem nasce.

Sem saber exatamente para quê.

Silvia Marchiori Buss

 

 

 

 

 

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