Aprender a Caber no Inacabado

 Ela não entendia quando diziam que o luto era diferente para cada pessoa.

Parecia uma frase pronta, dessas que se dizem para preencher o silêncio quando não há o que dizer.

Dor, pensava ela, era dor.
Perder era perder.
Como poderia caber diferença em algo que rasga do mesmo jeito?

No começo, tudo parecia igual para todos: o susto, o corpo que não acredita, o gesto automático de procurar quem já não está. A casa muda de lugar, mesmo sem sair do lugar. Os objetos permanecem, mas perdem a função de antes — viram lembranças pousadas sobre a superfície das coisas.

Mas depois…
depois o tempo começa a se comportar de maneiras estranhas.

Há quem chore todos os dias, como se cada manhã reabrisse a perda.
Há quem não chore nunca, como se o corpo tivesse escolhido endurecer para não desmoronar.
Há quem fale o nome em voz alta, para manter vivo.
E há quem não consiga pronunciá-lo, como se o nome ainda ferisse.

Ela começou a perceber que o luto não é uma estrada.
É um terreno.

E cada um pisa onde consegue.

Alguns avançam, outros ficam parados por muito tempo no mesmo ponto, observando uma única memória como quem olha o mar — sem saber exatamente o que espera encontrar ali.
Alguns desviam, criam atalhos, se ocupam, preenchem os dias com tarefas para não encostar na ausência.
Outros mergulham fundo, voltam ao início, refazem conversas, revivem detalhes, como se fosse possível reorganizar o que aconteceu.

Não há mapa.

E talvez seja isso que mais assuste.

Porque a gente cresce acreditando que para tudo existe um caminho certo. Uma ordem. Um jeito melhor de fazer. Mas o luto desmonta essa ideia com uma delicadeza cruel: não há jeito certo. Há o jeito possível.

Ela entendeu, devagar, que não se tratava de compreender a dor — mas de aprender a caber dentro dela sem se perder completamente.

E isso leva tempo.

Tempo para reaprender o próprio corpo.
Tempo para perceber que as pernas ainda sustentam, mesmo quando tudo parece desabar por dentro.
Tempo para olhar no espelho e reconhecer alguém que já não é exatamente quem era antes.

Dois olhos.
Duas pernas.
Um só coração — e ainda assim, outro.

Porque o luto não devolve o que levou.
Mas modifica quem fica.

Há dias em que parece que nada mudou.
E há dias em que tudo pesa diferente, como se o ar tivesse outra densidade.

Ela parou de se comparar.

Parou de medir sua dor pela régua dos outros.
Parou de buscar respostas em frases que prometiam algum tipo de consolo.

Entendeu que aceitar não é concordar.
É apenas não lutar contra aquilo que já aconteceu.

E, às vezes, aceitar é o máximo que se consegue fazer.

E já é muito.

O reencontro consigo mesma não aconteceu de uma vez.
Veio em pequenas coisas: no café feito sem pressa, no silêncio que já não assustava tanto, em uma música que doía menos do que antes.

Não houve um dia em que tudo fez sentido.
Talvez nunca haja.

Mas houve dias em que respirar não parecia um esforço.
E isso, por si só, já era um caminho.

Um caminho sem placas, sem direção certa —
mas ainda assim, um caminho.

O dela.

 

 

Silvia Marchiori Buss

 

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