Antes de ser Nome Ela era Neve
Nas manhãs em que o mundo ainda não havia decidido o que seria, ela já estava de pé.
Não
por disciplina, nem por pressa — mas porque a neve chamava. E havia um tipo de
chamado que não se ignora, apenas se escuta com o corpo inteiro.
A
casa onde vivia parecia ter nascido ali por engano e permanecido por teimosia.
Pequena, de madeira escurecida, com o telhado sempre um pouco mais branco do
que o restante da paisagem, como se quisesse se misturar ao que não era feito
de gente. As janelas raramente estavam completamente fechadas. O frio entrava
sem pedir licença, mas ela nunca o tratou como invasor.
Havia
aprendido cedo que o frio não fere quem não luta contra ele.
Caminhava
pela neve com uma calma que não era lentidão, era entendimento. Cada passo
afundava e desaparecia, mas ela não olhava para trás. Sabia que a montanha não
guarda rastros — apenas aceita presenças.
Os
cabelos, quase sempre soltos, acumulavam pequenos cristais de gelo que não
derretiam de imediato. Às vezes, pareciam parte dela, como se o inverno a
tivesse escolhido para continuar existindo em forma humana.
Falava
pouco. Não por ausência de palavras, mas porque ali, nas montanhas dos Alpes,
tudo já dizia o suficiente. O vento desenhava frases longas. A neve respondia
em silêncio. E o céu — quando abria — deixava escapar uma claridade que não
precisava de explicação.
Houve
um tempo em que tentaram trazê-la para baixo.
Diziam
que ninguém pertence ao gelo. Que o corpo cansa, que a pele racha, que a
solidão cresce como sombra ao entardecer. Trouxeram argumentos, casacos mais
grossos, promessas de lareiras acesas e vozes humanas ao redor da mesa.
Ela
ouviu tudo com a mesma atenção que dava ao vento.
E
ficou.
Não
por rebeldia. Nem por coragem. Ficou porque havia, dentro dela, uma espécie de
silêncio que só encontrava forma ali. Um silêncio que não era vazio, mas
matéria — algo que ocupava espaço, que respirava junto, que a sustentava.
Às
vezes, sentava-se na neve como quem se senta no próprio chão de casa. As mãos
afundavam devagar, e ela deixava. O frio subia pelos dedos, pelos braços, pelo
peito, até alcançar um ponto que não era desconforto, era reconhecimento.
Como
se, em algum lugar muito antigo, ela já tivesse sido aquilo.
Não
havia espelhos suficientes na casa para devolver uma imagem precisa. Mas,
quando passava pelas superfícies congeladas dos lagos no inverno, via um
contorno — não exatamente um rosto, não exatamente um corpo — algo entre
presença e paisagem.
E
isso bastava.
As
noites eram longas, mas nunca pesadas. O escuro ali não era ameaça; era
continuidade. Ela acendia uma luz pequena, mais por hábito do que por
necessidade, e deixava que o resto permanecesse intocado.
Dormia
com a janela entreaberta.
Sempre.
Porque
havia noites em que a neve caía sem som algum, e ela gostava de sentir quando
isso acontecia — como quem percebe que o mundo, por alguns instantes, resolveu
existir de forma mais leve.
E
nesses momentos, sem que ninguém visse, ela sorria.
Não
um sorriso inteiro, desses que se mostram.
Silvia
Marchiori Buss
Mas
um movimento quase imperceptível, como o de um floco que muda de direção no ar.
Se
alguém perguntasse o que ela era, talvez não soubesse responder.
Mulher,
diriam.
Mas
havia dias em que isso parecia pouco.
Porque
ela não vivia na neve.
Era
a neve que, de algum modo difícil de explicar, continuava vivendo nela.
Silvia
Marchiori Buss
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