Rezar é Reconhecer o Desespero
O que é rezar, afinal?
Será
que é pedir?
Será que é agradecer?
Ou será que, às vezes, rezar é apenas admitir que não estamos bem?
A
gente costuma rezar quando quer que algo mude. Quando precisa de ajuda, de
milagre, de solução. Mas há um tipo de oração que não pede nada. Não promete
nada. Não negocia nada.
Ela
apenas reconhece.
Existem
dias em que nada grave aconteceu — e ainda assim pesa. O corpo acorda estranho.
O pensamento fica turvo. Um cansaço sem explicação ocupa os gestos mais
simples. E se alguém pergunta “o que houve?”, a resposta não vem.
Não
houve nada.
E, ao mesmo tempo, houve tudo por dentro.
É
curioso como aprendemos a funcionar mesmo assim. Cumprimos horários.
Respondemos mensagens. Dizemos “tudo certo”. Administramos a própria tristeza
como quem organiza uma gaveta: fecha e segue.
Mas
há um momento em que a gaveta não fecha.
E
talvez seja aí que começa a oração mais honesta.
Não
aquela cheia de palavras bonitas.
Não aquela que organiza frases perfeitas.
Mas a que se resume a uma confissão simples:
“Eu não estou bem.”
Dizer
isso — mesmo em silêncio — já é um ato de coragem.
Porque
reconhecer o desespero é mais difícil do que suportá-lo calado. O desespero
discreto, que não faz cena, que não quebra nada, que apenas aperta o peito e
diminui o fôlego, esse é o mais traiçoeiro. Ele não grita. Ele se instala.
E
enquanto fingimos força, ele cresce.
Rezar,
nesse caso, não muda o mundo externo. A rua continua barulhenta. O relógio
avança. As obrigações esperam. Nada mágico acontece.
Mas
algo interno se desloca.
Quando
damos nome ao que dói, a dor deixa de ser sombra. Não desaparece, mas ganha
contorno. E o que tem contorno pode ser encarado.
Talvez
rezar seja isso: parar de sustentar a imagem de que damos conta o tempo todo.
É
baixar as defesas.
É largar o orgulho de parecer inteiro.
É admitir que a alma, às vezes, encolhe.
Não
para dramatizar.
Não para se vitimizar.
Mas para ser verdadeiro.
Porque
há dias em que a maior fé não está em pedir que passe.
Está
em reconhecer que dói. E, ainda assim, permanecer.
Silvia
Marchiori Buss
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