Antes de Voltar- ou de Não Voltar

 Não foi um lugar que a escolheu.

Foi uma espécie de sossego áspero, desses que não acolhem com delicadeza, mas também não expulsam.

Havia, acima das trilhas mais conhecidas, um trecho da montanha onde o vento mudava de maneira. Não cessava. Apenas perdia a pressa, como se ali até o ar entendesse que certas coisas não se atravessam sem cuidado. Entre pedras irregulares, manchas de neve antiga e um silêncio que parecia ter idade, ela costumava parar.

Não era uma paisagem fácil.
Nada ali oferecia conforto no sentido comum da palavra.

O chão exigia atenção. As subidas castigavam os joelhos. As mãos, às vezes, precisavam tocar a rocha gelada para que o corpo encontrasse equilíbrio. Quem subia até aquele ponto não ia por distração. Era preciso querer. Ou então já não saber muito bem para onde ir e, por isso mesmo, continuar.

Ela subia.

Nem sempre no mesmo dia da semana, nem sempre à mesma hora. Subia quando o mundo de baixo lhe apertava as costelas com sua soma de ruídos, obrigações, vozes, pequenas urgências. Subia quando a casa parecia estreita demais para o pensamento. Quando as palavras alheias pesavam mais do que deviam. Quando até o próprio nome lhe parecia uma roupa usada por tempo demais.

Levava pouca coisa consigo: água, um pedaço de pão, um casaco mais grosso, às vezes uma maçã. Nunca levava livro. Nunca levava companhia. Havia coisas que ela já não conseguia dividir sem que perdessem o sentido.

Foi numa dessas subidas, num fim de estação em que o frio ainda resistia entre as pedras, que ela viu as flores.

Não eram flores de anúncio.
Não chamavam atenção como as do vale, abertas em cor, fartura e perfume. Eram pequenas, brancas, quase feitas de contenção. Tinham alguma coisa de neve que aprendera a não desaparecer. Cresciam rente ao chão, agarradas à aspereza, como se tivessem entendido, antes de todos, que ali em cima ninguém sobrevive sozinho, mas certas coisas sobrevivem sem alarde. Sobrevivem calmas e serenas...Como se não existissem.

Ela se abaixou devagar.

Observou o desenho miúdo de cada pétala, o branco quase felpudo, o centro discreto, a delicadeza improvável brotando daquilo que, de longe, parecia apenas pedra e gelo. Tocou uma delas com a ponta dos dedos, com o cuidado de quem pede licença não à flor, mas ao lugar inteiro.

A textura a surpreendeu.
Havia maciez ali.

Ficou agachada por algum tempo, sem pensar propriamente em nada. O corpo descansando no próprio gesto, os olhos presos naquela resistência sem espetáculo. Depois sentou-se numa rocha e continuou olhando. O céu, muito alto, já começava a mudar de cor. O frio subia do chão. E, no entanto, ela não sentiu vontade de ir embora.

Voltou dias depois.

E depois outra vez.

Não ia exatamente para ver as flores, embora sempre as procurasse com os olhos assim que alcançava o trecho de pedras. Ia para partilhar com elas alguma coisa que não saberia dizer. Havia naquele modo de existir — sem excesso, sem vaidade, sem promessa — uma espécie de parentesco. Como se, de algum modo obscuro, estivessem do mesmo lado.

As estações seguiram seu ofício.

A neve engrossou. Depois cedeu. A água do degelo correu fina entre as pedras, e o verde, lá embaixo, voltou a se espalhar pelos campos do vale. Vieram dias de luz mais larga, outros de névoa baixa, outros ainda em que a montanha parecia feita apenas de ausência. Mas as flores regressavam sempre, ou permaneciam, mudando tão pouco que mal se podia chamar de mudança.

Ela começou a reparar nisso com uma atenção quase dolorosa.

Ninguém lhes ensinava coragem.
Ninguém as aplaudia por continuarem ali.
Ninguém descia a montanha dizendo que existiam flores pequenas resistindo ao frio onde quase nada se cria.

E, no entanto, ali estavam.

Sem grandiosidade.
Sem discurso.
Sem que sua permanência dependesse do olhar de alguém.

Houve uma tarde em que ela chegou mais cansada do que de costume. Não do caminho. Do resto. Sentou-se antes mesmo de alcançar o ponto onde costumava parar, respirando com esforço, como se trouxesse o peso de uma vida inteira amarrado às costas. O vento era mais duro naquele dia. As nuvens corriam depressa. Tudo parecia menos nítido.

Mesmo assim, continuou.

Quando finalmente alcançou o lugar das flores, não fez nada de especial. Não se ajoelhou, não chorou, não encontrou pensamento luminoso. Apenas sentou-se no chão irregular, abraçou os próprios joelhos e deixou o rosto voltado para a vastidão pálida diante dela.

Foi ali que entendeu, não com clareza, mas com o corpo, que pertencimento talvez não fosse ser recebida. Talvez fosse reconhecer, em algum canto do mundo, uma forma de existir que não lhe pedisse licença para ser o que era.

As flores não tentavam vencer a montanha.
Também não recuavam dela.

Viviam no exato ponto entre a delicadeza e a pedra.

E aquilo lhe pareceu coragem.

Não a coragem dos grandes gestos, dos anúncios, das decisões que todo mundo vê. Outra. Mais funda e menos admirável aos olhos dos outros. A coragem de permanecer sem garantia. A de suportar o frio sem se tornar frio. A de florescer rente ao risco, sem exigir que o terreno se tornasse ameno.

Ela ficou ali até o entardecer começar a apagar os contornos.

As montanhas, aos poucos, deixaram de ser recortes nítidos e passaram a ser massas escuras contra um céu desbotado. O branco das flores resistiu por mais alguns minutos, como resistem certas coisas quando todo o resto já se recolheu.

Então ela pensou que talvez passasse a vida inteira entre duas possibilidades: voltar ou não voltar. Voltar ao que conhecia, ao que esperavam dela, às divisões habituais dos dias, ao lugar de onde vinha. Ou não voltar do mesmo modo. Porque ninguém retorna intacto de certos encontros, ainda que volte para a mesma casa, a mesma rua, os mesmos objetos alinhados sobre a mesa.

Antes de voltar — ou de não voltar — permaneceu mais um pouco.

Apoiou a palma da mão na pedra fria ao lado do corpo. Sentiu o vento tocar seu rosto, entrar pelo casaco, mover de leve seus cabelos. Respirou fundo. Embaixo, muito longe, devia haver janelas acesas, panelas ao fogo, vozes chamando alguém para dentro. Ali em cima, só aquele silêncio de altitude, as flores miúdas e a impressão cada vez mais nítida de que nem tudo o que era pequeno estava destinado a desaparecer.

Quando se levantou, já era quase noite.

Olhou uma última vez para o chão pedregoso onde as edelweiss se espalhavam sem pressa, como se o mundo não lhes devesse nada e, ainda assim, elas soubessem ocupar seu lugar. Depois começou a descer.

Não havia conclusão naquilo.
Nem resposta.
Nem alívio inteiro.

Levava consigo apenas uma espécie de acordo silencioso.

Havia vidas que se impunham como jardins.
Outras precisavam aprender a ser flor de encosta.

E talvez fosse isso.

Não vencer o inverno.
Não pedir terreno melhor.
Não esperar que alguém compreendesse.

Mas continuar, branca e mínima, entre a pedra e o vento, com a coragem quieta de quem pertence até mesmo ao que não a acolhe por completo.

Como as flores Edelweiss.

 

Silvia Marchiori Buss

 

 

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