Morte Seguida de Breve Alívio
Não foi um acontecimento, exatamente.
Foi mais como quando o vento muda sem avisar — e, de repente, as cortinas
deixam de inflar.
Naquela
casa, havia muito tempo que o ar parecia gasto.
Não por falta de janelas, mas por excesso de permanência. Tudo ficava. O cheiro
do café da manhã de ontem, a cadeira ligeiramente torta, a marca de um copo
esquecido na mesa. Havia também um silêncio antigo, desses que não começam nem
terminam — apenas se instalam.
Ela
caminhava pelos cômodos como quem não quer acordar nada nem ninguém, apesar de
viver sozinha.
Os
objetos já não pediam uso. Apenas existiam. E existir, ali dentro, tinha um
peso específico, quase sólido. Era preciso atravessar o ar com cuidado, como se
cada gesto pudesse esbarrar em alguma coisa invisível.
Às
vezes, ela parava no meio do caminho — entre a sala e o corredor — sem lembrar
exatamente por que tinha saído de um lugar para chegar ao outro. Não era
esquecimento. Era uma espécie de suspensão. Como se o tempo, ali dentro, não
tivesse pressa de continuar.
Foi
numa dessas pausas que algo cedeu.
Não
houve nenhum barulho. Nenhuma queda visível.
Mas, de algum modo, o que sustentava aquele dia deixou de sustentar.
Ela
sentiu primeiro nos ombros.
Um alívio estranho, quase indevido. Como se alguém tivesse retirado um casaco
pesado, assim de repente. O corpo, desacostumado à leveza, demorou a entender.
Ficou ali, entre o susto e o descanso, tentando reconhecer aquela ausência de
peso.
Depois
veio o resto.
As
paredes pareceram se afastar um pouco.
O ar circulou — tímido, mas suficiente.
A cadeira torta já não importava. O copo marcado deixou de ser uma evidência.
Havia,
naquele instante, uma espécie de intervalo.
Não
era alegria, não era paz. Era uma trégua.
Como
quando se fecha uma porta que ficou aberta por tempo demais — e, por um
segundo, não se escuta nada do outro lado.
Ela
respirou mais fundo, sem perceber que fazia isso pela primeira vez em dias — ou
anos, talvez. O peito se expandiu com uma facilidade que beirava o
desconhecido.
E
então, muito devagar, veio a percepção.
Algo
havia morrido.
Não
um corpo.
Nem um nome.
Mas uma insistência.
Uma
ideia que permanecia mesmo depois de ter deixado de existir.
Um fio esticado além do necessário.
Uma presença que já não era presença, mas ainda ocupava espaço.
A
morte foi isso: a retirada desse fio.
Sem
cerimônia e sem anúncio.
E
o alívio — breve, como tudo que não sabe durar — veio logo depois, ocupando o
espaço deixado. Não para ficar, mas para marcar a diferença.
Ela
encostou a mão na parede, como quem testa a realidade de uma superfície.
A
casa continuava ali.
O silêncio também.
Mas
havia um deslocamento quase imperceptível. Como se, por dentro, alguma coisa
tivesse sido reorganizada sem consultar ninguém.
Ela
pensou em abrir a janela.
Não
abriu.
Ficou
ali, entre o gesto que começa e o gesto que não se completa, percebendo que nem
tudo precisa continuar.
O
ar, agora, já não pesava da mesma forma.
Mas também não era leve o suficiente para ser ignorado.
Havia
apenas esse meio — esse intervalo instável entre o que termina e o que ainda
não começou.
E,
dentro dele, ela permaneceu.
Sem
nomear. Sem concluir. Ela estava aprendendo, muito devagar, a habitar aquilo
que ficou.
Silvia
Marchiori Buss
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