O Silêncio Entre Dois Dias

Na rua onde morava Helena, as manhãs chegavam devagar.

Não era uma rua movimentada. Havia uma padaria pequena na esquina, uma árvore antiga que parecia conhecer todas as estações e algumas casas antigas que resistiam ao tempo com uma dignidade cansada.

Helena costumava acordar antes que a cidade estivesse completamente desperta. Não por necessidade. Era um hábito que a vida lhe ensinara.

Levantava-se com cuidado, como se o chão ainda estivesse adormecido. Colocava água no fogo, preparava café e abria a janela da cozinha. O ar da manhã entrava com aquela mistura de frio leve e cheiro de terra molhada que às vezes vinha do jardim do vizinho.

O primeiro som do dia quase sempre era o mesmo: passos.

Miguel passava pela rua por volta das seis e quinze. Caminhava sem pressa, com um casaco escuro e um jeito de quem não tinha destino urgente. Helena nunca soube exatamente para onde ele ia. Talvez ao trabalho, talvez apenas caminhar.

No começo, ela apenas o notava.

Depois passou a esperar.

Não era um esperar que ocupasse pensamentos. Era algo mais discreto, como quem percebe que certa parte do dia só acontece quando determinada coisa passa.

Ele caminhava olhando para frente, às vezes com as mãos nos bolsos. Outras vezes carregava um jornal dobrado.

Certa manhã, ao erguer os olhos, viu Helena na janela.

Não houve surpresa. Apenas um gesto simples de cabeça, quase imperceptível.

Ela respondeu da mesma forma.

Foi assim que começou.

Nos dias seguintes, quando Miguel passava, havia sempre aquele pequeno encontro de olhares. Nada mais. Nenhuma palavra. Nenhuma tentativa de aproximar o gesto.

Mas havia algo no meio.

Um espaço silencioso.

Helena não comentava isso com ninguém. Nem mesmo com Clara, sua irmã, que costumava ligar aos domingos para saber se ela estava bem.

Porque não era exatamente algo que se conta.

Era uma coisa pequena demais para caber numa frase e grande demais para ser ignorada.

As semanas passaram.

Um dia choveu forte. A rua ficou vazia e o som da água caindo nas calhas ocupou tudo. Helena abriu a janela mesmo assim.

Miguel passou com um guarda-chuva preto.

Ao chegar diante da casa, levantou um pouco o rosto, como se procurasse a janela.

Helena estava ali.

Ele sorriu.

Foi um sorriso breve, quase tímido, daqueles que parecem pedir desculpa por existir.

Helena percebeu, naquele instante, que não sabia nada sobre ele.

Não sabia se era casado, se tinha filhos, se gostava de música ou de silêncio. Não sabia sua idade verdadeira nem de onde vinha.

Sabia apenas o horário em que passava.

E o modo como caminhava.

Curiosamente, isso parecia suficiente.

Algumas presenças na vida das pessoas acontecem assim. Não entram pela porta, não ocupam a casa, não mudam os móveis. Apenas passam por um lugar do dia e deixam ali um pequeno sinal de que o mundo continua existindo.

Certa manhã, Miguel não passou.

Helena pensou que talvez tivesse se atrasado.

Esperou alguns minutos mais, ainda apoiada na janela.

A rua permaneceu vazia.

No dia seguinte também não apareceu.

Helena não sentiu tristeza exatamente. Era mais um tipo de suspensão, como quando um relógio para por alguns segundos e a gente não sabe se foi impressão.

Os dias continuaram.

A padaria abriu como sempre. A árvore continuou soltando folhas. O carteiro passou duas vezes naquela semana.

A rua seguia seu ritmo discreto.

Helena continuou abrindo a janela cedo.

Às vezes olhava a calçada por alguns segundos antes de voltar para o café.

Outras vezes ficava mais tempo.

Numa dessas manhãs, Clara ligou.

— O que você anda fazendo tão cedo acordada?

Helena pensou um pouco antes de responder.

— Nada.

E era verdade.

Porque entre um dia e outro, existe sempre um pequeno território silencioso que ninguém vê.

Um espaço que não pertence nem ao que passou nem ao que vai chegar.

É ali que certas coisas acontecem.

Um gesto de cabeça.

Um sorriso breve.

Um caminhar pela rua ainda fria.

E a sensação inexplicável de que, mesmo sem palavras, duas vidas se reconheceram por um instante no silêncio entre dois dias.

 

Silvia Marchiori Buss

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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