Chuva e Lágrimas
Ela descia a Avenida Paulista no mesmo compasso em que as lágrimas banhavam seu rosto.
A chuva caía fina,
insistente, dessas que não assustam ninguém, mas acabam molhando tudo. Os
guarda-chuvas coloridos formavam uma procissão apressada. Pessoas entravam e
saíam de prédios, atravessavam ruas, falavam ao telefone, carregavam sacolas,
protegiam os cabelos.
Ninguém prestava atenção
nela.
E aquilo era um alívio.
Havia dias em que a solidão
pesava mais quando alguém perguntava se estava tudo bem.
Os sapatos já estavam
encharcados. A barra da calça colava nas pernas. Os cabelos escuros escorriam
sobre os ombros como fios de tinta. Ainda assim, ela continuava andando.
Passou por uma banca de
jornal. Pelo cheiro de café que escapava de uma cafeteria. Pelo músico de rua
que insistia em tocar um saxofone sob uma marquise estreita.
A cidade seguia seu ritmo
indiferente.
Ela também já fora assim.
Correndo de reunião em
reunião, reclamando do trânsito, consultando o relógio mais vezes do que o
próprio coração. Durante anos acreditara que a vida era uma sucessão de
compromissos cumpridos.
Até que algumas ausências
começaram a ocupar espaço demais.
Primeiro, a cadeira vazia à
mesa.
Depois, o telefone que já
não tocava naquele horário.
Mais tarde, as datas que
insistiam em voltar.
Existem perdas que não
fazem barulho quando chegam. Apenas se acomodam na casa e ficam.
Uma buzina soou ao longe.
Um ônibus passou levantando
água.
Ela enxugou o rosto sem
saber exatamente onde terminava a chuva e começavam as lágrimas.
Talvez por isso continuasse
caminhando.
Porque andar dava a
sensação de que algo seguia em movimento.
Parou diante da vitrine de
uma livraria. Observou os reflexos misturados aos livros expostos. Por alguns
segundos, viu uma mulher que reconhecia apenas parcialmente.
A mesma bolsa.
O mesmo anel.
Os mesmos olhos.
Mas carregando um silêncio
que não existia anos antes.
Do outro lado da avenida, o
letreiro luminoso de um prédio acendeu. As luzes dos carros desenhavam riscos
vermelhos sobre o asfalto molhado.
A chuva aumentou.
Ela ergueu o rosto.
As gotas frias tocaram suas
pálpebras fechadas.
Ao redor, São Paulo
continuava imensa, barulhenta, viva.
E ela ficou ali, entre a
chuva e as lágrimas, observando a cidade desaparecer por trás da cortina de
água.
Silvia Marchiori Buss
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