Foi Então Que Nasci

Quando lhe perguntavam a idade, Silvana respondia com duas datas.

A primeira era a do registro, escrita numa certidão já amarelada pelo tempo. A segunda ninguém encontraria em documento algum.

Era o dia em que conheceu Miguel.

Antes disso, havia uma menina que cumpria horários, tirava boas notas, ajudava em casa, sorria quando esperavam que sorrisse. Cresceu como crescem tantas meninas: aprendendo a ocupar pouco espaço, a pedir licença até para existir.

Não era infeliz.

Mas também não sabia que estava viva.

O mundo lhe parecia uma sala onde as janelas nunca eram abertas por inteiro. Havia luz suficiente para enxergar os móveis, nunca o horizonte.

Foi Miguel quem, sem perceber, escancarou uma delas.

Não porque fosse um herói. Não porque tivesse respostas. Apenas porque caminhava pela vida com a estranha mania de notar o que quase ninguém via.

Via o desenho das nuvens antes da chuva.

O perfume do café que escapava da cozinha da vizinha.

As árvores que mudavam de cor sem fazer alarde.

Via Silvana.

Não a moça educada que todos conheciam, mas a mulher que ela ainda não havia encontrado.

Ao lado dele, descobriu que rir alto não era falta de compostura. Que silêncio também podia ser conversa. Que viajar não era fugir. Que voltar para casa podia significar chegar a um abraço.

Aprendeu a cozinhar inventando receitas que quase nunca davam certo.

Aprendeu a dançar sem música.

Aprendeu que algumas noites servem apenas para olhar o teto e agradecer por mais um dia comum.

Foi então que nasceu.

Não porque ele lhe deu uma vida.

Mas porque, ao ser amada sem medidas estreitas, encontrou coragem para ocupar a própria.

Durante décadas, ela acreditou que aquele nascimento pertencia aos dois.

Até o dia em que Miguel partiu.

A casa continuou inteira, mas o relógio parecia caminhar sobre pedras. O travesseiro conservava um lado impecavelmente arrumado. As xícaras diminuíram de peso. Até o vento parecia entrar mais devagar pelas frestas.

As pessoas repetiam frases conhecidas.

"O tempo ajuda."

"Você é forte."

"Ele gostaria de vê-la bem."

Silvana agradecia com a cabeça. Nenhuma delas alcançava o lugar onde a ausência havia feito morada.

Então surgiu uma pergunta que ninguém ousava responder.

Se ela nascera por causa dele...

Quem seria agora?

Durante meses, caminhou pela cidade como quem procura uma rua que deixou de existir.

Até que, numa manhã qualquer, entrou numa padaria onde nunca estivera.

Pediu um café.

Sentou-se perto da janela.

Lá fora, uma menina tentava equilibrar uma bicicleta sem rodinhas. Caía, levantava, ria, recomeçava.

Silvana sorriu.

E, sem pensar, levou a mão ao rosto.

O sorriso era o dele.

Mais tarde, parou diante de uma livraria.

Comprou um romance.

Era exatamente o tipo de livro que Miguel escolheria.

Ao chegar em casa, percebeu outra coisa.

Não.

Era o livro que ela escolheria.

Na semana seguinte, fez uma viagem curta.

Depois voltou a plantar flores na varanda.

Reaprendeu a preparar aquele risoto que os dois sempre discutiam qual ficava melhor.

Passou a conversar sozinha enquanto organizava a cozinha.

Às vezes respondia em voz alta e ria da própria resposta.

Não havia loucura naquilo.

Havia convivência.

Os anos compartilhados tinham deixado marcas discretas, como o perfume que permanece num casaco muito tempo depois da última estação.

Certa tarde, encontrou uma fotografia antiga.

Os dois ainda eram jovens.

Atrás da foto, reconheceu a letra de Miguel.

Havia apenas uma frase:

"Obrigado por ser assim."

Silvana ficou longo tempo olhando aquelas palavras.

Pela primeira vez desde a despedida, percebeu um detalhe que lhe escapara durante tantos anos.

Ele nunca escrevera:

"Obrigado por existir para mim."

Escrevera apenas:

"Obrigado por ser assim."

Dobrou a fotografia com cuidado.

Guardou-a na mesma caixa.

E deixou a tampa entreaberta.

Naquela noite, antes de apagar a luz, voltou a pensar na pergunta que a acompanhava desde a partida dele.

Será que havia morrido junto com o homem que lhe ensinara a nascer?

A resposta não veio.

Veio apenas uma sensação difícil de explicar.

Talvez algumas pessoas não passem pela nossa vida para nos prender a elas.

Talvez passem para abrir uma porta que permanecerá aberta mesmo quando seus passos já não puderem ser ouvidos.

Silvana fechou os olhos.

Lá fora, o vento atravessava as árvores com o mesmo som de tantos anos atrás.

Ela respirou devagar.

E, por um instante, não soube dizer se caminhava sozinha...

...ou se a própria vida, enfim, aprendera a caminhar com as pernas que ele um dia lhe ensinou a descobrir.

Silvia Marchiori Buss

 

 

 

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Não Quero Esquecer do Teu Abraço

As Bruxas Estão Soltas...

As Gavetas da Mente e Suas Chaves Específicas (Crônica)