O Mundo Em Suas Asas
Ivete sempre teve um mapa-múndi pendurado na parede da cozinha.
Não era um mapa bonito. As
pontas estavam amareladas, havia marcas de fita adesiva nos cantos e algumas
manchas de café denunciavam os anos passados diante dele. Mesmo assim, era o
objeto mais precioso da casa.
Todas as manhãs, antes de
sair para o trabalho, ela parava alguns segundos diante daquele pedaço de
papel. Percorria com os dedos cidades de nomes sonoros, mares de azul profundo,
cordilheiras que pareciam desenhadas por artistas distraídos.
Mas a vida de Ivete
acontecia em outro lugar.
Acordava cedo, cuidava da
mãe idosa, trabalhava o dia inteiro, resolvia contas, consultas médicas,
pequenos consertos domésticos e todas aquelas tarefas invisíveis que ocupam uma
existência inteira.
Viajar era um sonho
guardado na gaveta das coisas improváveis.
Numa noite de inverno,
depois de mais um dia comum, adormeceu na poltrona da sala.
Foi então que ouviu uma voz
suave.
— Você continua olhando o
mapa.
Ao erguer os olhos, viu um
homem vestido de luz. Não tinha a aparência que os livros descrevem. Parecia
apenas alguém muito antigo e muito sereno.
— Quem é você?
— Um viajante.
— E o que faz aqui?
— Vim porque seus pés nunca
saíram daqui, mas seus pensamentos vivem atravessando oceanos.
Ivete sorriu.
— Pensamentos viajam de
graça.
— E por isso mesmo são os
mais valiosos.
O homem abriu as enormes
asas douradas.
— Venha.
Antes que pudesse
responder, sentiu-se leve.
Subiram.
A cidade desapareceu sob as
nuvens.
Logo estavam sobrevoando a
França.
Paris surgiu iluminada como
uma constelação pousada sobre a terra. O rio Sena serpenteava entre pontes
antigas, e as ruas pareciam guardar histórias em cada esquina.
— Sempre quis caminhar por
aí — sussurrou Ivete.
— E caminhou muitas vezes
em seus livros.
Seguiram adiante.
A Itália apareceu banhada
por um sol dourado. Viram Veneza flutuando sobre as águas, Florença repleta de
cúpulas e Roma espalhando séculos por suas pedras.
Ivete observava tudo com
olhos de menina.
Depois vieram os Alpes
suíços.
Montanhas cobertas de neve
brilhavam sob a lua.
Ela reconheceu Lausanne,
Montreux, Genebra.
Reconheceu paisagens que
tantas vezes admirara em fotografias.
O vento trazia o som
distante de sinos e trens atravessando vales.
Mais adiante surgiu a
Grécia.
O mar tinha um azul
impossível.
As ilhas pareciam pequenas
joias espalhadas sobre a água.
— Como pode existir tanta
beleza? — perguntou.
— Ela sempre existiu. O
difícil é encontrar tempo para observá-la.
Voaram então sobre o Egito.
As pirâmides surgiam
silenciosas no deserto, como se guardassem segredos que nem o tempo conseguira
decifrar.
Depois cruzaram o Japão.
Luzes coloridas, templos
antigos e cerejeiras floridas conviviam como velhos amigos.
Ivete não conseguia parar
de sorrir.
Passaram pela África, pela
Austrália, pelas montanhas do Chile, pelos fiordes da Noruega e pelas ruas
vibrantes de Lisboa.
Cada lugar parecia contar
uma história diferente.
Cada povo carregava uma
maneira própria de existir.
Quando o amanhecer começou
a tingir o horizonte, o viajante reduziu a velocidade.
— Está na hora de voltar.
— Não quero.
— Ninguém quer quando
descobre que o mundo é maior do que imaginava.
A casa reapareceu.
A cozinha.
A poltrona.
O velho mapa.
Ivete sentiu os pés tocarem
o chão.
— Foi um sonho?
O viajante sorriu.
— Talvez.
— Então nunca conhecerei
esses lugares de verdade.
— Tem certeza?
Ele apontou para o coração
dela.
— Existem pessoas que
atravessam oceanos sem enxergar nada. E existem aquelas que aprendem a ver o
mundo inteiro através da curiosidade, dos livros, da música, das histórias e
dos encontros que a vida oferece.
A luz começou a
desaparecer.
— Mas viajar não é estar
lá?
— Às vezes. Outras vezes,
viajar é permitir que o mundo chegue até você.
O viajante abriu as asas
pela última vez.
— E quem sabe um dia seus
pés alcancem os lugares onde sua alma já esteve tantas vezes.
Ivete acordou.
O sol entrava pela janela.
Na parede, o velho mapa
continuava no mesmo lugar.
Mas agora ele parecia
menor.
Não porque o mundo tivesse
diminuído.
Mas porque, durante uma
única noite, ela havia aprendido a voar.
Silvia Marchiori Buss
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