Quando Tudo Se Torna Ilusão
Havia dias em que Marina tinha a impressão de morar dentro de uma casa feita de vidro. Não porque as paredes fossem transparentes, mas porque tudo o que parecia sólido acabava revelando pequenas rachaduras.
Começou devagar.
Uma amizade que jurava
eternidade desapareceu sem uma explicação que coubesse numa conversa. Um amor
que prometia atravessar tempestades desistiu ao primeiro vento mais forte. O
trabalho ao qual entregara anos de dedicação mudou de mãos e de prioridades,
como se sua história pudesse ser guardada numa caixa qualquer.
Até os lugares mudavam.
A padaria onde o padeiro
sabia seu nome fechou. A árvore da praça foi derrubada depois de uma
tempestade. A casa da infância ganhou outra cor, outro portão, outras vozes.
Era estranho descobrir que até as lembranças podiam perder o endereço.
Marina passou a desconfiar
das certezas.
Quando alguém dizia
"para sempre", ela escutava apenas o eco de uma palavra bonita.
Quando lhe prometiam que nada mudaria, sorria por educação. Já aprendera que a
vida tinha um talento antigo para mover móveis, pessoas e sentimentos sem pedir
licença.
Numa tarde de inverno,
encontrou um velho ilusionista sentado num banco da praça.
Não usava cartola nem
coelho escondido na manga. Tinha apenas um baralho gasto e mãos tranquilas.
Ela parou por curiosidade.
— O senhor vive de ilusões?
Ele sorriu antes de
responder.
— Não. Vivo de mostrar que
nossos olhos acreditam depressa demais.
Fez uma carta desaparecer.
Logo depois, ela reapareceu dobrada dentro do bolso do casaco de Marina.
Ela riu.
— Então é tudo mentira.
O homem balançou a cabeça.
— Não. O truque existiu. O
espanto também. O que muda é a maneira como cada um explica o que viu.
Marina foi embora levando
aquela frase consigo.
Nos dias seguintes percebeu
que talvez confundisse ilusão com decepção.
Uma flor de cerejeira dura
poucos dias. Nem por isso deixa de ser verdadeira enquanto floresce.
O arco-íris desaparece
antes que alguém consiga alcançá-lo. Ainda assim ninguém duvida de que esteve
ali.
O perfume do café se desfaz
no ar poucos minutos depois de servido. Mas há manhãs inteiras que continuam
existindo apenas por causa daquele aroma.
Talvez o erro fosse exigir
permanência daquilo que nascera para ser passagem.
Ainda assim, algumas
perguntas insistiam.
Se tudo muda, onde fica
aquilo que somos?
Se as pessoas partem, para
onde vão os pedaços que deixam em nós?
Se as promessas envelhecem,
quem continua morando dentro delas?
Numa noite, Marina abriu
uma bolsa gasta pelo tempo.
Encontrou fotografias
amareladas, um ingresso de cinema, uma carta escrita à mão, uma folha seca
guardada entre páginas de um livro.
Nada daquilo tinha
utilidade.
Mas tudo ainda respirava.
Percebeu que as ilusões
costumam desaparecer quando tentamos segurá-las com força. As lembranças, ao
contrário, preferem as mãos abertas.
Fechou a bolsa sem
responder às próprias perguntas.
Lá fora, a chuva começava a
desenhar reflexos nas calçadas. As luzes dos postes pareciam estrelas
espalhadas pelo chão, ou talvez fossem apenas poças d'água fazendo o velho
truque de confundir o céu com a terra.
Marina ficou algum tempo
observando aquela paisagem silenciosa, sem sentir necessidade de descobrir onde
terminava a realidade.
Silvia Marchiori Buss
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