Do Outro Lado do Espelho
Helena tinha o hábito de conversar com os espelhos.
Não porque acreditasse em
magia. Nem porque esperasse respostas. Apenas havia dias em que o reflexo
parecia mais disposto a escutar do que as pessoas.
O espelho do corredor era
antigo. Herdado da mãe, carregava pequenas manchas escuras nos cantos e uma
moldura de madeira marcada pelo tempo. Quem o observasse diria que precisava
ser restaurado. Helena pensava o contrário. Gostava das marcas. Elas lhe pareciam
honestas.
Numa tarde de chuva,
enquanto a água deslizava pelos vidros da janela, ela parou diante dele por
mais tempo que o costume.
A mulher refletida tinha os
mesmos olhos castanhos, os mesmos cabelos já rendidos aos fios prateados. E, no
entanto, parecia outra.
Talvez porque ninguém seja
exatamente o mesmo depois de atravessar certas tempestades.
Helena passou a mão pela
moldura.
Lembrou-se da menina que
queria ser bailarina.
Da jovem que acreditava que
o amor resolveria tudo.
Da mulher que correu contra
relógios, criou filhos, pagou contas, enterrou sonhos e, às vezes, os
ressuscitou discretamente quando ninguém estava olhando.
Quantas moravam ali?
A menina.
A jovem.
A mãe.
A viúva.
A mulher que reaprendia a
viver.
Todas pareciam existir ao
mesmo tempo, escondidas atrás daquela imagem imóvel.
Durante anos, Helena
acreditara que a vida avançava em linha reta. Agora suspeitava que não.
Talvez ela fosse mais
parecida com uma casa cheia de quartos.
Alguns permaneciam
iluminados.
Outros ficavam fechados
durante décadas.
E havia aqueles que a gente
jurava vazios, até ouvir um ruído vindo lá de dentro.
A chuva aumentou.
Ela continuou diante do
espelho.
Pensou nas pessoas que
haviam partido.
Nas que ficaram.
Nas que ela mesma deixara
para trás sem perceber.
Há despedidas que acontecem
sem data marcada.
Um dia somos alguém.
No outro, já nos tornamos
lembrança na vida de outra pessoa.
O espelho não respondeu.
Mas parecia guardar todas
aquelas perguntas.
Helena sorriu.
Era curioso.
Passara anos procurando
explicações para quase tudo.
Agora colecionava perguntas
com o mesmo cuidado.
Talvez a maturidade tivesse
algo a ver com isso.
Não com encontrar
respostas.
Mas com aprender a conviver
com os mistérios.
Do lado de fora, a chuva
começou a diminuir.
Uma nesga de luz atravessou
as nuvens e pousou sobre a madeira antiga da moldura.
Helena observou o próprio
rosto mais uma vez.
Não viu a mulher que
perdera.
Nem a que vencera.
Nem a que sonhara.
Viu apenas alguém em
movimento.
Alguém que ainda carregava
caminhos por dentro.
Passou os dedos pelo vidro
frio e seguiu para a cozinha preparar café.
O espelho permaneceu no
corredor.
Silencioso.
Guardando, do outro lado,
todas as versões de Helena que continuavam vivendo ali, sem pressa de partir.
Silvia Marchiori Buss
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