Pisando em Ovos
Beatriz costumava dizer que a vida já lhe tinha ensinado quase tudo. O quase era importante. Sempre aparecia alguém ou alguma situação para desmentir a frase.
Professora aposentada, dona
de um riso fácil e de uma coleção de histórias acumuladas em décadas de salas
de aula, ela atravessara doenças, dificuldades financeiras, separações
inesperadas e despedidas dolorosas. Sobrevivera a todas elas com uma mistura curiosa
de teimosia e bom humor.
Mas bastava encontrar
Jussara no corredor do prédio para perder a desenvoltura.
E isso a divertia e a
irritava na mesma medida.
As duas eram vizinhas havia
mais de trinta anos.
Jussara era o tipo de
pessoa que parecia ter assinado um contrato vitalício com a reclamação.
Se fazia calor, era um
absurdo.
Se fazia frio, uma
tragédia.
Se chovia, a cidade estava
abandonada.
Se fazia sol, vinha uma
seca sem precedentes.
Quando o elevador
funcionava, demorava demais.
Quando chegava rápido,
devia estar estragado.
Nada escapava.
— Bom dia, Jussara!
— Bom não está. Já viu o
preço do café?
Beatriz sorria.
— Ainda não. Mas o
passarinho ali parece feliz.
— Passarinho não paga
conta.
E a conversa terminava.
Nas reuniões do condomínio,
Jussara era uma espécie de personagem folclórica.
Reclamava da cor das
flores.
Da altura das árvores.
Do barulho das crianças.
Do silêncio dos
adolescentes.
Da velocidade do portão.
Da lentidão do porteiro.
Uma vez passou vinte
minutos discutindo o formato dos vasos da entrada.
Beatriz ouviu tudo
pacientemente.
Ao final, comentou:
— Concordo. Os vasos
realmente têm um comportamento questionável.
Alguns moradores seguraram
o riso.
Jussara não percebeu.
Continuou falando dos vasos
por mais dez minutos.
Apesar disso, havia algo na
relação das duas que escapava à lógica.
Jussara nunca deixava de
bater à porta quando recebia uma encomenda por engano.
Nunca esquecia de avisar
quando alguma conta chegava na caixa errada.
E sempre trazia um pedaço
de bolo nos aniversários de Beatriz.
Entregava o prato como quem
estivesse devolvendo um objeto perdido.
— Fiz demais.
Era sua forma particular de
carinho.
Beatriz conhecia aquele
idioma.
Numa tarde, encontrou a
vizinha sentada no banco da entrada do prédio.
Estranhou.
Jussara não costumava ficar
ali.
Sentava-se apenas o tempo
necessário para reclamar do banco.
— Está esperando alguém?
— Não.
— Então está fazendo o quê?
— Sentada.
— Excelente escolha.
Jussara lançou-lhe um olhar
atravessado.
Beatriz sentou ao lado.
Ficaram alguns minutos
observando a rua.
— O movimento está bonito
hoje — comentou Beatriz.
— Bonito onde?
— Ali. A moça com o
cachorro. O menino andando de bicicleta. O senhor carregando flores.
Jussara suspirou.
— Você acha beleza em tudo.
— Não em tudo. Só no que
sobra.
A vizinha permaneceu em
silêncio.
Coisa rara.
Muito rara.
— Sabe o que é engraçado? —
disse Beatriz.
— O quê?
— Passei a vida dando aula
para duzentos adolescentes por ano. E continuo sem saber lidar com você.
Jussara abriu um sorriso
pequeno, quase escondido.
— Nem eu comigo mesma.
Depois levantou-se.
— Vai chover.
— O céu está azul.
— Mesmo assim.
Entrou no prédio e
desapareceu pelo corredor.
Beatriz ficou olhando.
Achou graça.
Algumas pessoas são como
móveis antigos: rangem ao menor movimento, implicam com tudo, reclamam do mundo
inteiro, mas permanecem no mesmo lugar quando todo o resto já foi embora.
Jussara era assim.
No dia seguinte, às oito da
manhã, bateu na porta.
— Seu jornal ficou lá
embaixo.
— Obrigada.
— E essa planta está
precisando de água.
— Bom dia para você também.
— Não exagera.
Beatriz fechou a porta
sorrindo.
Havia amizades feitas de
abraços.
Outras de confidências.
A delas era feita de
bilhetes esquecidos, bolos entregues sem cerimônia, jornais recolhidos na
portaria e reclamações sobre vasos, elevadores e previsão do tempo.
Uma amizade construída com
a delicadeza de quem passa a vida inteira pisando em ovos.
Sem quebrar nenhum.
Silvia Marchiori Buss
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