Fantasias e Verdades

Todos nós carregamos fantasias.

Não aquelas de carnaval, com brilhos e máscaras coloridas, mas as que moram dentro da cabeça. As que inventamos para suportar o que ainda não entendemos. As que criamos para preencher os espaços vazios da vida.

Fantasiamos que o amor será para sempre. Que nossos pais estarão conosco eternamente. Que teremos tempo de sobra para dizer o que sentimos. Que os filhos nunca crescerão. Que a saúde é um direito adquirido e não um empréstimo silencioso.

As fantasias não são mentiras. Muitas vezes são apenas esperanças vestidas de certeza.

O problema começa quando confundimos fantasia com verdade.

A fantasia diz que a felicidade é um lugar onde se chega.

A verdade mostra que ela mora em pequenas visitas inesperadas.

A fantasia promete que um dia tudo estará resolvido.

A verdade ensina que a vida não se resolve; ela se vive.

A fantasia nos faz acreditar que as pessoas que amamos jamais mudarão.

A verdade mostra que todos estamos em constante transformação, aprendendo, perdendo, recomeçando.

Curiosamente, passamos boa parte da existência tentando proteger nossas fantasias. Construímos argumentos, justificativas e até muros para que elas não sejam ameaçadas.

Mas a verdade é paciente.

Ela não grita.

Ela espera.

E um dia chega.

Chega quando percebemos que alguém que parecia forte também chora escondido. Quando entendemos que dinheiro não compra paz. Quando descobrimos que o sucesso não elimina a solidão. Quando percebemos que envelhecer não é perder valor, mas ganhar histórias.

A verdade costuma entrar sem bater à porta.

Às vezes vem numa despedida.

Às vezes numa doença.

Às vezes numa mudança inesperada.

E, embora quase nunca seja confortável, ela tem uma qualidade rara: liberta.

Porque viver sustentando fantasias exige esforço. É como carregar malas pesadas numa longa caminhada.

A verdade, por outro lado, pode doer, mas permite que a gente caminhe mais leve.

A sabedoria está justamente no equilíbrio.

Nem abandonar completamente as fantasias, porque são elas que alimentam os sonhos.

Nem ignorar as verdades, porque são elas que sustentam os passos.

Precisamos dos sonhos para seguir adiante.

Mas precisamos da verdade para não nos perdermos no caminho.

No fim das contas, a vida é esse encontro delicado entre o que imaginamos e o que realmente é.

Entre o roteiro que escrevemos e a história que acontece.

Entre a fantasia que nos inspira e a verdade que nos amadurece.

Com suas luzes e sombras.

Com suas perdas e reencontros.

Com suas fantasias.

E, principalmente, com suas verdades.

Silvia Marchiori Buss

 

 

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