Vem Que Te Enfrento
A placa estava ali havia anos.
Pequena, enferrujada, presa
a um mourão torto na beira da estrada.
VEM QUE EU TE ENFRENTO
Os que passavam inventavam
histórias.
Briga de vizinhos.
Disputa por terras.
Desafio de alguém que já
nem estava vivo.
Laura também inventara as
suas.
Durante muito tempo
acreditou que aquelas palavras pertenciam a alguém.
Nunca lhe ocorreu que
pudessem pertencer a ela.
Naquela manhã de inverno,
estacionou o carro sem saber exatamente por quê.
O campo estava coberto por
uma névoa fina. Os cavalos pareciam recortados no branco, imóveis como figuras
esquecidas depois que a festa acaba.
Ela caminhou até a cerca.
O frio entrou pelas mangas
do casaco.
Leu a frase uma vez.
Depois outra.
E mais uma.
Curioso como certas
palavras passam anos diante dos nossos olhos sem conseguir entrar.
Até o dia em que encontram
uma fresta.
Laura pensou na carta
dobrada dentro de um livro que nunca teve coragem de enviar.
Pensou no número de
telefone que ainda sabia de memória.
Pensou nas conversas que
aconteciam apenas dentro da sua cabeça, geralmente de madrugada, quando a casa
ficava silenciosa demais.
A placa rangeu com o vento.
Um som pequeno.
Quase nada.
Mas suficiente para
deslocar alguma coisa.
Vem.
A saudade apareceu
primeiro.
Sem pedir licença.
Veio sentar-se ao lado das
lembranças que ela mantinha organizadas, como quem arruma uma estante para não
precisar abrir certas caixas.
Depois veio o medo.
Não dos acontecimentos.
Mas das perguntas.
Daquelas que sobrevivem aos
anos.
A culpa chegou logo atrás,
carregando coisas antigas que ela acreditava ter deixado pelo caminho.
Laura observou os cavalos.
Um deles ergueu a cabeça.
Outro continuou pastando,
indiferente ao frio, à névoa e ao tempo.
Talvez fosse isso.
A vida seguia acontecendo
enquanto ela gastava energia mantendo portas fechadas.
Passara anos empurrando
certas emoções para os fundos da alma, como móveis pesados que ninguém quer
mover sozinho.
E, no entanto, continuavam
ali.
O vento soprou outra vez.
Ela passou a mão sobre as
letras enferrujadas.
A tinta áspera ficou nos
dedos.
Ficou olhando para eles
durante alguns segundos.
Depois voltou para o carro.
Ligou o motor.
Permaneceu parada mais um
pouco.
O campo estava silencioso.
A névoa começava a
levantar.
No retrovisor, a placa foi
ficando menor.
Até desaparecer numa curva.
Laura seguiu dirigindo.
Quando chegou ao primeiro
cruzamento, deu seta para a direita.
Fazia anos que escolhia a
esquerda.
Silvia Marchiori Buss
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