Falando Com as Estrelas

Naquela noite, Ludmila não procurava respostas.

A idade lhe ensinara que elas costumam chegar quando já não são tão necessárias.

Sentou-se na varanda com uma manta sobre os ombros. A cidade se espalhava em pequenas luzes pelas colinas. Acima dela, o céu exibia sua antiga coleção de estrelas.

Havia quem falasse com santos.

Havia quem falasse com fotografias.

Ludmila falava com as estrelas.

Não porque acreditasse que elas respondiam. Gostava apenas da sensação de poder dizer qualquer coisa sem ser interrompida.

Durante a vida inteira, acumulou perguntas.

Por que algumas pessoas partem cedo?

Por que certos amores permanecem mesmo quando já não têm presença?

Por que a memória guarda o cheiro de uma tarde distante e esquece fatos acontecidos ontem?

As estrelas nunca responderam.

Ainda assim, ela voltava.

Naquela noite, falou de coisas simples.

Contou que o ipê da rua florescia menos do que antigamente.

Que as crianças do bairro haviam crescido.

Que os rostos conhecidos desapareciam aos poucos das janelas e dos bancos da praça.

Depois ficou em silêncio.

Um silêncio longo.

Daqueles que não constrangem.

Daqueles que fazem companhia.

Ludmila observou uma estrela mais brilhante perto do horizonte.

Pensou nos homens que medem distâncias entre galáxias, calculam trajetórias, observam mundos invisíveis através de lentes sofisticadas.

Achava curioso que se soubesse tanto sobre o céu e tão pouco sobre certas dores humanas.

Ninguém calculava a extensão de uma saudade.

Ninguém media o peso de uma ausência.

Ninguém descobria onde se escondem as palavras que deixamos de dizer.

O vento passou devagar pela varanda.

Ludmila ajeitou a manta.

Passara boa parte da vida acreditando que os acontecimentos importantes eram aqueles que mudavam tudo.

Casamentos.

Mudanças.

Nascimentos.

Perdas.

Agora desconfiava dos grandes acontecimentos.

O que permanecia era outra coisa.

Uma conversa na cozinha.

Uma gargalhada inesperada.

O cheiro de café chegando antes das pessoas.

Uma música atravessando a casa numa tarde comum.

Era ali que a vida costumava se instalar.

Sem alarde.

Sem aviso.

Uma janela se apagou ao longe.

Outra acendeu.

O céu continuava imóvel.

Ludmila apoiou a cabeça na cadeira e deixou os olhos passearem entre as estrelas.

Havia passado anos tentando compreender muita coisa.

O tempo.

Os encontros.

As despedidas.

Os desvios que transformam uma existência.

Naquela noite não procurava compreender nada.

Apenas observava.

Como quem acompanha uma conversa muito antiga sem conhecer todas as palavras.

Olhou para a estrela mais brilhante.

— Vocês também devem ter perguntas — disse baixinho.

O vento atravessou a varanda.

Em algum lugar da cidade, um cachorro latiu.

As estrelas permaneceram onde estavam.

Ludmila ficou olhando para elas por mais alguns minutos.

Depois entrou em casa.

A cadeira continuou voltada para o céu

Silvia Marchiori Buss

 

 

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