O Que Sobrou do Dia

O leilão terminava sempre do mesmo jeito.

As vozes iam diminuindo, os caminhões eram carregados às pressas e alguém, inevitavelmente, perguntava o que fazer com aquilo que ninguém quis. Era a parte menos interessante para quem comprava e a mais curiosa para Eduardo, que nunca levantava a placa para disputar um lance. Gostava de ficar até o fim.

Os objetos pareciam mudar de  personalidade quando deixavam de despertar interesse. Enquanto estavam sobre o estrado, eram antigos, valiosos, raros. Bastava o martelo anunciar o último lote para se transformarem em estorvo.

Naquela tarde, um funcionário arrastou uma mala de couro escurecida pelo tempo.

— Essa vai embora junto com o resto.

Eduardo olhou sem muita atenção.

A mala tinha riscos profundos, um fecho torto e uma etiqueta quase ilegível presa à alça. Não chamava a atenção pela beleza. Chamava pelo abandono.

Comprou-a por um valor simbólico.

Levou-a para casa e a deixou no escritório, perto da janela.

Durante dias, a mala tornou-se apenas mais um móvel da casa.

Passava por ela levando livros, procurando documentos, atendendo telefonemas. Às vezes pousava uma xícara de café sobre a tampa, como quem esquece que ali existe uma história — qualquer história.

Numa manhã de chuva resolveu abrir o fecho.

Foi preciso insistir algumas vezes.

Dentro havia roupas.

Um vestido azul.

Dois casacos masculinos.

Sapatos pequenos, cuidadosamente colocados lado a lado.

Uma toalha bordada apenas com duas letras.

Nada mais.

Nenhuma fotografia.

Nenhuma carta.

Nenhum documento.

Nada que dissesse quem foram aquelas pessoas ou por que a mala terminara num leilão de móveis antigos.

Eduardo passou os dedos pelo tecido do vestido. Ainda conservava a maciez de quem fora pouco usado ou muito bem guardado.

Dobrou-o outra vez.

Fechou a tampa.

No dia seguinte tornou a abri-la.

Não procurava respostas.

Olhava.

Era estranho como alguns objetos recusavam qualquer explicação. Bastava estarem ali.

Os dias seguiram.

Quem visitava a casa perguntava por que ele não doava aquelas roupas.

Eduardo respondia apenas que ainda não tinha decidido.

E mudava de assunto.

Nem ele saberia explicar o motivo daquela demora.

Havia tardes em que a mala permanecia fechada.

Em outras, bastava levantar a tampa por alguns minutos, sem tocar em nada, antes de voltar ao trabalho.

Como quem abre uma janela para um quintal que não conhece.

O inverno chegou.

Depois veio a primavera.

O jardim floresceu sem pedir licença, os vizinhos mudaram a cor da fachada, uma árvore da rua precisou ser cortada depois de uma tempestade.

A mala continuou no mesmo lugar.

Certa vez, uma menina que visitava a casa perguntou se ela era dele.

Eduardo respondeu que não sabia.

A menina pareceu satisfeita com a resposta.

Correu para o quintal atrás de uma borboleta.

Naquela noite, Eduardo permaneceu algum tempo olhando pela janela do escritório.

Quando escureceu, não acendeu a luz.

A claridade que restava do lado de fora atravessou o vidro, desenhou um retângulo no assoalho e alcançou a mala.

Por alguns minutos, ela deixou de parecer abandonada.

Parecia apenas esperando.

Esperando o quê, ninguém saberia dizer.

Quando a última faixa de luz desapareceu, Eduardo fechou a janela sem fazer barulho.

A mala continuou onde estava.

E o que havia sobrado do dia também.

Silvia Marchiori Buss

 

 

 

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