A Mulher que Colecionava Amanhãs
Quando perguntavam por que guardava tantas coisas, Clara respondia sem pensar:
— Um dia ainda vou
precisar.
A frase servia para um
vestido comprado e nunca usado, para uma caixa de botões herdada da mãe, para
um livro com páginas amareladas e para uma xícara rachada que já não combinava
com nenhuma outra.
Quem entrava em sua casa
tinha a impressão de que tudo estava em ordem. As estantes eram limpas, os
armários fechavam sem esforço, as cortinas deixavam a luz entrar na medida
certa. Nada parecia excesso.
Mas cada objeto ocupava um
lugar reservado para um amanhã.
Havia o caderno onde
escreveria suas memórias quando tivesse tempo. A máquina de costura que
voltaria a funcionar depois da aposentadoria. O mapa da Patagônia comprado numa
livraria de aeroporto, dobrado com cuidado havia mais de dez anos. Um par de
botas para as caminhadas que começariam assim que o joelho melhorasse.
Fotografias ainda sem moldura porque, mais adiante, reformaria a sala.
Clara nunca dizia
"nunca".
Dizia "depois".
E o depois era uma terra
fértil, onde tudo florescia sem esforço.
Os dias, porém, eram
ocupados por outras pessoas.
Levava a vizinha às
consultas médicas. Cuidava do neto quando a filha precisava trabalhar até mais
tarde. Fazia compras para um primo que já não dirigia. Telefonava para uma
amiga recém-viúva toda quinta-feira. Sabia ouvir sem olhar o relógio.
Não reclamava.
Gostava de ser necessária.
Talvez por isso se
acostumasse a colocar a própria vida numa prateleira mais alta, daquelas que
exigem uma escada para alcançar.
Às vezes, ao abrir um
armário, encontrava lembranças de planos antigos.
Ingressos de um espetáculo
ao qual não foi.
Receitas marcadas com
pequenos círculos vermelhos.
Uma pasta de recortes sobre
cursos de pintura.
Uma lista de cidades
escritas à mão: Ouro Preto, Lisboa, Montevidéu, Paraty.
Passava os dedos sobre os
papéis como quem acaricia um animal adormecido.
Depois fechava a gaveta.
A vida sempre chamava do
lado de fora.
Numa tarde de chuva,
procurando uma certidão de nascimento, encontrou uma agenda esquecida no fundo
de uma caixa.
Era antiga.
As folhas tinham adquirido
aquela cor que o tempo inventa.
Folheou datas sem
importância até chegar à última página.
Ali havia apenas uma frase.
"Não deixar a vida
virar rascunho."
Clara ficou olhando aquelas
palavras durante um longo tempo.
Não se lembrava do dia em
que as escrevera.
Também não lembrava da
mulher que tinha aquela letra firme e apressada.
Fechou a agenda.
Preparou um café.
Sentou-se perto da janela.
Na calçada, um rapaz
equilibrava sacolas de supermercado. Um cachorro recusava-se a atravessar a
rua. Uma menina insistia em apanhar folhas levadas pelo vento. Nada parecia
extraordinário.
Talvez fosse justamente
esse o modo como os dias aconteciam.
Sem avisos.
Sem cerimônia.
Na semana seguinte, Clara
abriu algumas caixas.
Dobrou roupas.
Separou fotografias.
Leu cartas que já conhecia
de cor.
Guardou quase tudo outra
vez.
Não porque fosse incapaz de
mudar, mas porque compreendeu que também havia afeto naquilo que permanecia.
Dias depois, encontrou uma
passagem de ônibus para uma cidade onde nunca estivera.
Sorriu ao imaginar quem
teria sido durante aquela viagem.
Dobrou o papel com o mesmo
cuidado de tantos anos e o colocou de volta no envelope.
Na manhã seguinte, saiu
mais cedo de casa.
Levava apenas a bolsa, uma
garrafa de água e a agenda antiga.
A vizinha perguntou para
onde ia.
Clara sorriu.
— Ainda não sei.
A porta ficou apenas
encostada. Sobre a mesa, a agenda permanecia aberta naquela mesma página. O
vento virou algumas folhas, como faz com calendários, jornais e lembranças.
Quando a rua a engoliu na esquina, ninguém saberia dizer se Clara seguia em
direção a um amanhã ou, simplesmente, ao dia que já havia começado.
Silvia Marchiori Buss
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