A Lua Que Parecia Sol
Às duas da madrugada, a praça estava iluminada como uma manhã de verão.
Não havia postes acesos nem
refletores ligados. A claridade vinha do céu.
Quem saiu à rua primeiro
ficou parado, sem entender. Acima dos telhados, pairava uma esfera dourada tão
intensa que fazia as sombras se esconderem debaixo dos bancos, das árvores e
das marquises.
Era a lua.
Ou pelo menos ocupava o
lugar onde a lua deveria estar.
As portas começaram a se
abrir. Surgiram pessoas de roupão, de chinelos, com os cabelos ainda marcados
pelo travesseiro. Algumas apontavam para o céu. Outras apenas observavam, como
quem teme quebrar um encanto ao dizer qualquer palavra.
Os cachorros latiam sem
descanso. Um ou outro galo arriscava um canto confuso. Nos jardins, flores
acostumadas à escuridão abriram as pétalas antes da hora.
A cidade levou algum tempo
para aceitar o que via.
Aquela não era uma lua mais
brilhante que o normal.
Parecia um sol perdido no
meio da noite.
As horas passaram devagar.
Ninguém voltou para a cama.
Havia algo naquela
claridade que impedia o sono, como se a própria noite tivesse decidido
permanecer acordada.
As fachadas antigas surgiam
nítidas. A tinta descascada dos muros. As rachaduras que o escuro costumava
esconder. Os brinquedos esquecidos nos quintais. As bicicletas encostadas havia
meses nas garagens. Os bancos vazios da praça.
Tudo parecia exposto.
A luz entrava pelas frestas
das cortinas, atravessava vidros e persianas, escorria pelos corredores das
casas e repousava sobre fotografias, cartas guardadas em gavetas e objetos que
ninguém tocava havia muito tempo.
Não era uma luz agressiva.
Mas era impossível
ignorá-la.
Uma senhora encontrou um
retrato do marido entre as páginas de um livro que não abria havia anos.
Um homem sentou-se na
varanda e ficou observando a janela da casa onde crescera.
Uma menina perguntou à mãe
por que a lua estava acordada.
A mãe não soube responder.
Pouco depois das quatro
horas, uma névoa começou a nascer sobre os campos ao redor da cidade.
Primeiro parecia apenas um
véu.
Depois tornou-se espessa,
silenciosa, espalhando-se pelas ruas.
A luz dourada atravessava a
bruma e transformava tudo.
As árvores pareciam
gigantes imóveis.
As casas lembravam
embarcações flutuando em um mar branco.
As estradas desapareciam e
reapareciam alguns metros adiante.
O mundo havia se tornado
outro.
As pessoas observavam das
janelas.
Nem assustadas.
Nem tranquilas.
Apenas observando.
Como quem assiste a algo
raro demais para ser interrompido.
Pouco antes do amanhecer, o
brilho começou a enfraquecer.
Lentamente.
Quase com delicadeza.
O dourado tornou-se
prateado.
O prata transformou-se em
branco.
Depois, pouco a pouco, a
esfera luminosa voltou a parecer apenas lua.
Uma lua comum.
Distante.
Silenciosa.
Quando o verdadeiro sol
surgiu atrás das colinas, pareceu tímido diante do espetáculo que encontrara.
A manhã chegou sem alarde.
As lojas abriram.
Os ônibus passaram.
As crianças seguiram para a
escola carregando mochilas maiores que elas.
Os padeiros retiraram pães
dos fornos.
Os trabalhadores retomaram
seus caminhos.
A cidade voltou a funcionar
como sempre.
Mas durante muito tempo
ainda se falou daquela madrugada.
Da lua que parecia sol.
Da noite que se recusou a
ser noite.
Da claridade que atravessou
casas e pensamentos.
Alguns diziam que não
passara de um fenômeno raro.
Outros preferiam não
procurar explicações.
Certas luzes não aparecem para iluminar ruas
ou paisagens.
Aparecem para revelar o que
permanece escondido mesmo diante dos nossos olhos.
E naquela noite, enquanto a
lua vestia a roupa do sol, cada pessoa enxergou alguma coisa que havia passado
tempo demais sem querer ver.
Silvia Marchiori Buss
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