A Primavera Que Chegava Pela Porta

Ele chegava como chega uma brisa de primavera… leve, suave e refrescante.

Não fazia barulho ao entrar na casa. Era como se o próprio silêncio o reconhecesse antes da chave tocar a porta. Trazia consigo o cheiro da rua depois da chuva, um perfume discreto de sabonete barato misturado ao vento, e aquela maneira calma de ocupar os espaços sem empurrar nada para fora do lugar.

A menina sempre sabia quando ele estava chegando.

Mesmo pequena, corria até a janela antes de qualquer aviso. Não porque ouvisse seus passos, mas porque certas pessoas deixam um movimento diferente no mundo quando se aproximam. Como árvores que se mexem antes da tempestade. Como cortinas que respiram antes da janela abrir.

O pai sorria ao vê-la esperando.

— Já sabia que eu vinha?

Ela nunca respondia. Apenas se jogava em seus braços com a força das crianças que ainda acreditam que o amor impede qualquer partida.

Ele trabalhava demais. As mãos tinham marcas de ferramentas, pequenos cortes esquecidos e um cansaço antigo morando entre os dedos. Ainda assim, quando penteava os cabelos da filha antes da escola, fazia isso com uma delicadeza quase impossível para alguém tão gasto pela vida.

À noite, inventava histórias.

Nenhuma tinha reis. Nenhuma tinha heróis. Eram histórias sobre homens comuns que conversavam com passarinhos, mulheres que guardavam luas dentro das gavetas, pescadores que ouviam o mar reclamar da solidão. A menina dormia antes dos finais, mas ele continuava narrando baixinho, como se as palavras precisassem terminar o caminho sozinhas.

O tempo passou como passam certas águas: silencioso por cima, fundo demais por baixo.

A menina cresceu.

Vieram as pressas, os estudos, os dias difíceis, os amores quebrados, as cidades diferentes, os telefonemas adiados para depois. O pai envelheceu sem anunciar. Os cabelos ficaram brancos devagar, quase pedindo desculpas. Continuava chegando leve, suave, refrescante…, mas agora havia uma lentidão discreta em seus movimentos, como se o corpo precisasse negociar cada gesto com os anos.

Ainda assim, toda vez que ela abria a porta e o encontrava esperando, sentia a mesma coisa da infância.

Uma espécie de primavera entrando junto dele.

Na última vez em que estiveram juntos, sentaram-se na varanda sem falar muito. O céu tinha aquele tom indeciso entre tarde e noite, e o pai observava as árvores como quem tenta escutar algo distante.

— Engraçado… — disse ele depois de um tempo. — A vida inteira achei que precisava te ensinar alguma coisa.

Ela sorriu.

— E ensinou.

Ele balançou a cabeça devagar.

— Não… o importante eu nunca consegui explicar.

Ela quis perguntar o que era. Mas não perguntou.

Há silêncios que amadurecem melhor sem a pressa das respostas.

Hoje, anos depois, quando o vento da primavera entra pelas janelas da casa, ela ainda para por um instante. Às vezes fecha os olhos. Às vezes sorri sem perceber. Isso porque ela sabe que certas pessoas não vão embora completamente.

Ficam nos corredores. Nos finais de tarde. Na maneira como seguramos uma xícara. No cuidado ao dobrar uma roupa. No tom de voz que usamos para acalmar alguém triste.

E, principalmente, ficam no ar.

Leves.
Suaves.
Refrescantes, como brisa de primavera

Silvia Marchiori Buss

 

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