O Mundo Está Muito Ordinário
Ordinário.
No
dicionário, significa comum. Aquilo que acontece todos os dias. O que é
habitual, corriqueiro, simples.
Mas,
na boca das pessoas, ordinário quase sempre vira ofensa. Algo vulgar. Sem
nobreza. De má qualidade. Pequeno.
Talvez
o problema não esteja na palavra. Talvez esteja no nosso olhar.
O
mundo está muito ordinário, dizem.
E
está mesmo. Acordamos, rolamos a tela, repetimos opiniões prontas, nos
irritamos com desconhecidos, julgamos em quinze segundos aquilo que não
entenderíamos em quinze anos. As conversas estão mais rasas. As indignações,
mais baratas. O afeto, apressado. O mundo anda ordinário no pior sentido:
perdeu delicadeza.
Mas
também está ordinário no melhor sentido possível.
O
padeiro abre a porta às seis da manhã como sempre abriu. A senhora rega as
plantas na varanda. Um pai leva a filha à escola segurando a mochila maior que
ela. O ônibus passa no mesmo horário. A chuva insiste em cair nos mesmos meses.
O café continua quente quando a gente precisa.
Ordinário
é aquilo que sustenta a vida sem fazer alarde.
Talvez
estejamos confundindo o espetáculo com a essência.
Queremos
tudo extraordinário: amores arrebatadores, carreiras brilhantes, viagens
memoráveis, corpos perfeitos, opiniões geniais. Mas é o ordinário que mantém o
coração batendo. É o arroz com feijão. É o telefonema curto perguntando “chegou
bem?”. É a cama arrumada, a conta paga, o remédio tomado na hora certa.
O
mundo está ordinário porque nós estamos cansados. E gente cansada perde a
fineza. Fala mais alto, escuta menos, simplifica demais o que é complexo. A
pressa transforma tudo em rascunho — inclusive as relações.
Mas
há uma escolha possível.
Podemos
ser ordinários no sentido mais bonito: constantes. Fiéis. Simples. Humanos.
Ser
ordinário pode ser resistir ao escândalo permanente. Pode ser não compartilhar
o ódio. Pode ser continuar acreditando na educação, na gentileza, no “bom dia”
dito olhando nos olhos. Pode ser amar sem precisar anunciar.
Talvez
o mundo não esteja pior. Talvez esteja só mais barulhento. E o barulho faz
parecer que tudo perdeu valor.
O
extraordinário cansa. O ordinário sustenta.
No
fim, a vida é feita do que se repete: acordar, tentar, falhar, recomeçar. Amar
de novo. Cozinhar de novo. Esperar de novo.
Se
o mundo está ordinário, que seja no sentido de permanecer.
Porque
é no comum que a vida acontece.
E, quase sempre, é ali que ela resiste.
Silvia
Marchiori Buss
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