O Tempo Não Cura Tudo
Dizem que o tempo cura. Dizem com a tranquilidade de quem nunca precisou aprender a conviver com uma ausência sentada à mesa. O tempo, na verdade, não cura. Ele apenas ensina onde dói menos tocar.
No
começo, a dor é um quarto sem portas. Tudo ecoa. O barulho do mundo entra como
se fosse o dono de tudo, sem nem mesmo pedir licença: risos alheios, músicas
que não combinam, manhãs claras demais. O tempo passa por ali como um visitante
constrangido — não arruma nada, só observa.
Depois,
algo muda. Não melhora. Muda.
A
ferida continua ali, mas cria crostas frágeis. A gente aprende a caminhar
desviando. Aprende que certos dias pedem silêncio, que certas lembranças exigem
cadeira e água doce por perto. Aprende a reconhecer o cheiro da saudade antes
que ela chegue — como quem sente chuva antes do primeiro trovão.
O
tempo não apaga o que foi. Ele não apaga nomes, nem vozes, nem o jeito exato de
alguém dizer nosso nome quando estava feliz ou cansado. O tempo apenas torna
possível respirar entre uma lembrança e outra. Um intervalo mínimo. Um milagre
pequeno.
Há
dias em que tudo volta intacto: o peso no peito, a falta de ar, a certeza de
que aquilo não deveria ter acabado. E nesses dias o tempo não serve para nada.
Fica ali, inútil, passando, só passando...
Mas
há outros dias — raros, quase tímidos — em que a dor se senta ao lado, não em
cima. Não grita nem machuca. Apenas existe. E isso já é diferente. Não é cura.
É convivência.
O
tempo não fecha feridas profundas. Ele ensina a gente a viver com elas abertas,
sem sangrar o tempo todo. Ensina que é possível sorrir sem traição, lembrar sem
desmoronar, amar de novo sem substituir.
No
fim, o tempo não faz nada grandioso.
Ele não explica.
Não conserta.
Ele
só passa.
E
a gente passa junto —
com a dor ainda ali,
mas sem cair o tempo todo.
Silvia
Marchiori Buss
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