A Dor Tira o Brilho dos Olhos

Helena não chorou no velório.

As pessoas interpretaram aquilo como força. Comentavam baixo: “Que mulher firme.” Ela ouvia como quem escuta uma conversa em outro cômodo.

Apertava mãos, agradecia presenças, aceitava abraços demorados. Repetia “obrigada” como quem aprende uma nova profissão. O corpo sabia o que fazer. O corpo sempre sabe.

A dor, quando é grande demais, não faz cena.

Foi dias depois que algo mudou. Não no jeito de andar. Não na voz. No olhar.

Ela acordava cedo. Lavava o rosto. Preparava café para uma xícara só. Sentava à mesa e ficava alguns minutos olhando a cadeira vazia à frente. Não pensava nada específico. Só permanecia.

O mundo continuava funcionando com uma eficiência irritante. O padeiro abria às seis. A vizinha regava as plantas às sete. O ônibus passava no mesmo horário. Crianças iam para a escola arrastando mochilas maiores do que o corpo.

Helena participava de tudo como quem cumpre uma tarefa.

Mas os olhos não acompanhavam.

Não estavam vermelhos. Não estavam inchados. Não estavam chorosos. Apenas não tinham brilho.

Ela percebeu isso numa tarde comum. Foi ao mercado. A moça do caixa perguntou se queria nota fiscal. Helena levantou o rosto para responder e viu o próprio reflexo no vidro atrás da atendente.

Reconheceu o rosto. Não reconheceu a luz.

Os olhos brilhavam antes quando ela falava de planos. Uma viagem que fariam no inverno. A reforma da casa. A ideia de plantar limoeiros no quintal. Havia sempre alguma coisa adiante. O brilho vinha do que ainda não tinha acontecido.

Agora não havia adiante. Havia continuidade.

Em casa, guardou as compras, lavou as frutas, organizou a geladeira. Pequenos gestos são âncoras. Enquanto cortava tomates, sentiu que poderia viver assim por muito tempo: funcional, correta, silenciosa.

À noite, abriu a gaveta da mesa de cabeceira. Encontrou um relógio antigo que ele usava aos domingos. Ficou segurando o objeto por alguns minutos. Não chorou.

A dor não se apresentava como desespero. Era mais parecida com ausência de cor.

Dias passaram. As visitas diminuíram. As mensagens ficaram raras. O mundo, delicadamente, seguiu adiante. Ela ficou.

Começou a observar outras pessoas. No ônibus, na farmácia, na fila do banco. Havia olhares parecidos com o dela. Gente que cumpria horários, fazia piadas, pagava contas — e carregava dentro dos olhos uma espécie de neblina permanente.

A dor não isola. Ela multiplica silenciosamente.

Numa manhã de domingo, Helena decidiu limpar o armário do quarto. Dobrou roupas que já não seriam usadas, separou algumas para doação. Encontrou uma camisa com cheiro antigo. Sentou-se na cama, segurando o tecido.

Dessa vez chorou.

Não foi um choro alto. Foi um choro que vinha do fundo do corpo, como se algo estivesse finalmente cedendo. Não havia revolta. Havia cansaço.

Depois, ficou ali parada. Respirando. O quarto não parecia menor. O silêncio não parecia maior. Tudo era exatamente como antes — e completamente diferente.

Levantou-se, levou a camisa até o fundo do armário e fechou a porta.

Naquela noite, foi ao banheiro e encarou o espelho.

O brilho ainda não tinha voltado.

Talvez não voltasse.

Mas havia outra coisa ali. Não era força. Não era superação. Era permanência. Um tipo de resistência que não faz discurso.

A dor tira o brilho dos olhos porque leva o que estava projetado neles. Leva o futuro imaginado, as cenas que ainda não tinham acontecido.

O que sobra é um olhar sem promessa.

Mas é um olhar que sabe.

Helena apagou a luz do banheiro e foi dormir. O mundo continuaria no dia seguinte. O pão sairia quente. O ônibus passaria no horário. As pessoas acordariam com seus próprios vazios.

E ela também.

Sem brilho.

Mas de olhos abertos.

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Silvia Marchiori Buss

 

 

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