Bem Próximo da Janela

Ela ficava bem próximo da janela, como se aquele pedaço de parede fosse o único lugar da casa onde o ar ainda circulava inteiro.

A moldura de alumínio já perdera o brilho de anos atrás. Havia pequenas marcas no vidro — respingos de chuva antiga, poeira que o pano não alcançava totalmente, um risco fino quase invisível que só aparecia quando o sol batia de lado. A cortina, leve demais para ser cortina, ondulava com a fresta sempre aberta, mesmo no frio.

Ela mantinha a fresta.

Vestia uma blusa de linho bege, já macia de tanto uso, marcada nos punhos como se ali repousassem seus cotovelos todas as tardes. A saia azul descia até os tornozelos, discreta, com a barra um pouco gasta. Os pés descalços buscavam o chão frio como quem confirma que ainda há chão.

O cabelo estava preso sem intenção de ficar bonito. Algumas mechas escapavam e tocavam o rosto, e ela não as afastava. Deixava que o vento resolvesse.

O semblante era amplo. Não era o rosto de quem espera, nem o de quem desistiu. Era o rosto de quem conhece.

Os olhos tinham um tipo de profundidade que não se aprende nos livros. Eram olhos que já viram uma sala cheia esvaziar-se aos poucos. Que já acompanharam o ponteiro do relógio em noites longas demais. Que já atravessaram hospitais, despedidas, retornos, silêncios.

Da janela ela via a rua. O menino da casa amarela chutando uma bola contra o muro. A senhora de cabelo violeta regando plantas com exagero. O padeiro baixando a porta de ferro, sempre com o mesmo barulho metálico. A vida espalhada em gestos comuns.

A casa atrás dela guardava outra temperatura.
Não era grande. A vida também não foi. Mas ali, naquela borda entre dentro e fora, tudo parecia caber.

A mesa da cozinha comportava apenas uma xícara. Houve um tempo em que eram duas. O vapor do café subia do mesmo jeito, mas encontrava menos palavras pelo caminho.

Sobre o aparador repousava uma fotografia virada para dentro. Ela não a escondia. Apenas a deixava ali, encostada na parede, como se a imagem precisasse descansar.

O vento atravessava a fresta e trazia cheiros da rua: pão quente, gasolina, terra molhada quando chovia. Ela inspirava fundo. A respiração era uma prova simples de permanência.

Houve dias em que a janela esteve fechada. Dias em que o silêncio se espalhou pelos corredores como uma névoa. Mas a fresta sempre voltava a se abrir.

Ela continuava ali.
Não esperava nada extraordinário. Não fazia promessas para o futuro. Permanecia.

O próximo minuto chegava. Depois outro. A luz mudava de tom. A rua diminuía o movimento. A noite se aproximava com seu azul mais denso. Um poste acendia. Outro. O menino recolhia a bola. A senhora guardava o regador.

Ela seguia junto da janela.

 

Silvia Marchiori Buss

 

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