O Gosto Amargo Que Ficou

 O gosto apareceu tarde demais para ser associado a alguma coisa concreta. Não houve cena, nem marco, nem data. Apenas um dia em que ela percebeu que tudo o que levava à boca terminava igual: com um travo curto, persistente, impossível de localizar.

Pensou em remédio.
Depois em estômago.
Depois em idade.

Nada explicava.

Continuou vivendo sem comentar com ninguém. Não parecia assunto. As pessoas falavam de dores maiores, de exames, de faltas mais evidentes. Um gosto estranho não justificava interrupções.

No trabalho, mastigava devagar. Evitava balas, chicletes, qualquer coisa que prometesse disfarce. Aprendeu que o amargo não gostava de ser provocado. Quanto mais tentava combatê-lo, mais ele se fixava.

Havia dias em que ele quase desaparecia. Nesses dias ela se permitia uma falsa normalidade: almoçava sem atenção, bebia café em goles largos, ria no tempo certo. Bastava um descuido — um silêncio prolongado, uma espera desnecessária — e lá estava ele de novo, discreto e firme.

Não vinha com lembranças.
Isso era o mais estranho.

Nenhuma imagem, nenhuma voz, nenhuma cena antiga. Apenas o gosto. Como se algo tivesse sido deixado ali sem aviso, sem narrativa, sem direito a explicação.

Certa noite, acordou com sede. Bebeu água direto da garrafa. O amargo resistiu. Sentou na beira da cama e ficou ali alguns minutos, sem pensar em nada específico. Não havia o que pensar. Era só aquilo.

Com o tempo, parou de investigar. Passou a reconhecer o momento exato em que ele surgia: sempre depois que algo terminava sem conclusão. Uma conversa interrompida. Uma espera que não se cumpria. Uma decisão adiada.

Não anotou.
Não nomeou.
Não contou.

O gosto não pedia compreensão. Não exigia drama. Apenas permanecia, ocupando um espaço mínimo, mas constante — como um ruído baixo que, depois de um tempo, o corpo aceita como parte do ambiente.

E foi assim que seguiu: sem tentar resolver, sem procurar causa. Sabendo apenas que algumas coisas não deixam marcas visíveis. Ficam onde ninguém vê. E não passam.

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Silvia Marchiori BussParte inferior do formulário

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