Entre o Doce e o Amargo
— Você sempre chega primeiro — disse o Amargo.
—
Não é verdade — respondeu o Doce. — Eu só fico mais tempo na memória.
—
Fica porque eu te preparo. Sem mim, você seria raso.
—
E sem mim, você seria insuportável.
O
Amargo riu baixo. Tinha riso de café forte, de casca de laranja mordida sem
aviso.
—
As pessoas me evitam — ele disse. — Fazem careta quando me encontram.
—
Mas voltam — respondeu o Doce. — Sempre voltam. Porque você ensina.
—
Ensinar dói.
—
Nem sempre. Às vezes só acorda.
O
Amargo caminhou até a borda da xícara. Era madrugada. Havia uma mulher sozinha
na cozinha, olhando para o nada enquanto segurava o café ainda quente.
—
Ela me conhece bem — murmurou o Amargo. — Eu moro na garganta dela desde aquele
telefonema.
O
Doce encostou ao lado, silencioso.
—
Eu também moro ali — disse baixinho. — Só que apareço menos. Sou lembrança de
risada antiga. Sou cheiro de bolo de domingo. Sou a mão que ainda aperta outra
mão, mesmo que não esteja mais ali.
O
Amargo não respondeu de imediato.
—
Eu não gosto de ser necessário — confessou. — Gostaria de ser visita breve.
—
Você é — disse o Doce. — O que dura é o que a gente faz depois de você.
O
Amargo olhou para ele com certo cansaço.
—
Você sempre fala como se fosse leve.
—
Não sou leve. Sou escolha.
A
mulher levou a xícara à boca. Fez leve careta. Depois respirou fundo.
—
Viu? — disse o Amargo.
—
Espera — respondeu o Doce.
Ela
abriu o pote de açúcar. Hesitou. Não colocou muito. Só uma pequena colher.
Mexeu
devagar.
O
Amargo sentiu o toque primeiro.
—
Você vem me diluir?
—
Não. Venho ficar com você.
Silêncio.
A
mulher bebeu de novo. Não sorriu. Mas também não fez careta.
—
Está diferente — disse o Amargo.
—
Estamos juntos — respondeu o Doce.
—
Isso é equilíbrio?
—
Não. Isso é convivência.
A
mulher terminou o café. Lavou a xícara. Apagou a luz.
O
Amargo ficou um instante no fundo da garganta dela.
O
Doce também.
E
os dois permaneceram ali, misturados, como quase tudo o que realmente importa.
Silvia
Marchiori Buss
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