Oito Andares Acima do Juizo
O toc-toc na porta se manteve insistente por alguns minutos. Forte. Decisivo. De alguém que não aceitaria um “não vou abrir” como resposta.
Ela
acordou num susto que lhe colocou o coração na boca. Sentou-se na cama, arrumou
os cabelos que se espalhavam pelo rosto. Sentiu um gosto amargo subir pela
garganta até alcançar a boca. Pigarreou. Entendeu que as incessantes batidas
eram algo sério.
Correu
até a porta, seguida pelo eco que se dilatava na cozinha de ladrilhos azuis e
brancos. Abriu. Estendeu a mão. Puxou-o para dentro e o agasalhou num abraço.
Era
o rapaz do 201.
O
cheiro dele — sabonete barato misturado a algo mais quente, mais masculino —
entrou primeiro, antes mesmo do corpo. Ela sentiu a respiração dele ainda
acelerada contra o seu pescoço. Jovem demais, pensou. Jovem demais para o que
acordava nela.
Morava
no 804 havia quinze anos. O apartamento alto, com janelas abertas para a cidade
que não dormia, era seu território seguro. Separada havia tempo suficiente para
que os vizinhos a chamassem de “a senhora discreta do oitavo”. Senhora. Ela
sorria sempre que ouvia. Não se sentia senhora de nada — apenas dona de um
silêncio bem administrado.
Ele
chegara há três meses.
Primeiro
foram os encontros no elevador. Depois, os cumprimentos demorados no corredor.
Em seguida, o modo como ele segurava a porta para que ela passasse — devagar
demais. O toque leve na cintura, que poderia ser acidente, mas não era. Havia
algo no olhar dele que não combinava com a inocência dos vinte e poucos anos.
—
Desculpa a hora — ele murmurou, ainda dentro do abraço.
Ela
fechou a porta com o pé, sem quebrar o contato. O coração já não estava na
boca. Estava mais abaixo.
—
Você podia ter mandado mensagem — disse, mas a voz saiu baixa, rouca.
—
Eu sabia que você não ia responder.
Ela
afastou o corpo apenas o suficiente para enxergar o rosto dele. Os olhos
estavam escuros, determinados. Não havia urgência de perigo ali. Havia outra
coisa.
—
E se eu não abrisse?
Ele
sorriu de lado.
—
Você abriu.
O
silêncio entre eles ficou espesso. A cozinha de ladrilhos azuis e brancos
parecia observar a cena com uma frieza geométrica. Ela percebeu que ainda
segurava o braço dele. Não soltou.
—
O que foi? — perguntou, por fim.
Ele
hesitou. Não por timidez. Por escolha.
—
Eu tentei não subir. Fiquei andando no corredor. Voltei para o meu apartamento.
Desci dois lances pela escada. Mas toda vez eu parava na frente do elevador e
apertava o oito.
Oito.
O número dela.
Ela
sentiu um arrepio que não vinha do frio da madrugada. Havia muito tempo ninguém
falava com ela desse modo — como se a quisesse com intenção clara, sem pedir
desculpas por isso.
—
Você não sabe o que está fazendo — ela disse, mas já não tinha convicção.
—
Sei exatamente.
Ele
tocou o rosto dela com os dedos. Devagar. Como quem aprende um mapa. A pele
dela reagiu antes do pensamento. Havia anos não era tocada assim: não como
alguém que desperta fome, mas como quem é banquete.
Ela
pensou na diferença de idade. Pensou nos olhares do condomínio. Pensou na
palavra ridícula que usariam para descrevê-la. Depois pensou no modo como ele a
observava — sem piedade, sem rótulo. Apenas desejo.
—
Você devia voltar para o 201 — ela sussurrou.
—
E você devia fechar a porta.
Ela
não fechou.
Ele
aproximou o corpo. Não havia pressa, apenas certeza. A mão dele desceu pela
curva das costas dela, reconhecendo o caminho como se já tivesse percorrido
antes em pensamento. Ela sentiu a própria maturidade vibrar, não como
limitação, mas como território firme. Não era menina. Sabia o que queria. E o
que queria estava ali, respirando no ritmo dela.
O
beijo veio sem anúncio. Não foi voraz. Foi profundo. Como quem mergulha sabendo
nadar.
Quando
se afastaram, a madrugada parecia diferente. Mais densa. Mais cúmplice.
—
Isso é loucura — ela murmurou.
—
Talvez — ele respondeu. — Mas é a única coisa que parece certa.
Ela
segurou o rosto dele entre as mãos. Observou as linhas jovens, a energia
contida, a coragem quase insolente. Depois se permitiu sorrir — um sorriso que
não dava permissão nem pedia desculpa.
—
Então não bata mais na minha porta assim.
Ele
franziu a testa.
—
Como?
Ela
aproximou os lábios do ouvido dele.
—
Bata devagar. Para eu ter tempo de escolher abrir.
E,
naquela madrugada, no oitavo andar, a mulher que aprendera a viver de silêncio
descobriu que alguns ruídos — insistentes, decididos — não vinham para ameaçar
a paz. Vinham para acordar o que ainda estava vivo.
Silvia
Marchiori Buss
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