"Se Essa Rua Fosse Minha"

A rua não tinha nome raro. Chamava-se Rua das Acácias, embora nenhuma acácia resistisse inteira ao vento do sul. Era estreita, com casas de janelas baixas e cortinas que respiravam junto com a tarde.

Helena morava na terceira casa à esquerda. Miguel, na última esquina, onde a rua parecia pensar duas vezes antes de continuar.

Eles não sabiam exatamente quando começaram a se amar. Talvez tenha sido no dia em que ele segurou a bicicleta dela enquanto ela fingia não precisar de ajuda. Ou na tarde em que a chuva veio de repente e os dois se abrigaram sob a mesma marquise, rindo como se a vida fosse apenas aquilo: respingos e proximidade.

A rua assistiu a tudo.

Assistiu aos silêncios demorados no portão. Aos bilhetes dobrados quatro vezes, deixados sob a pedra solta perto do meio-fio. Aos domingos em que caminhavam devagar, inventando assuntos para que o trajeto nunca terminasse.

Helena, às vezes, cantarolava distraída:
— “Se essa rua, se essa rua fosse minha…”

Miguel sorria.
— E é de quem, então?

— De ninguém. — Ela respondia. — Ruas não têm dono.

Mas no fundo, ela pensava diferente.

Se aquela rua fosse dela, pisaria macio para não acordar as memórias. Plantaria árvores que florescessem o ano inteiro. Faria bancos de madeira para que o tempo pudesse sentar. Colocaria lampiões que nunca apagassem — nem nas noites em que o amor ficasse difícil.

Porque o amor também ficou difícil.

Miguel recebeu uma proposta de trabalho longe. Muito longe. A esquina já não bastava, a rua já não continha seus passos. Ele precisava ir.

Na última noite antes da partida, caminharam pela Rua das Acácias como quem percorre um corpo amado pela última vez. Cada casa parecia despedir-se. Cada janela guardava um pedaço deles.

— Se essa rua fosse minha… — ele começou.

— Você faria o quê? — ela perguntou, com um sorriso que tentava ser inteiro.

— Eu não pisaria sozinho nela nunca mais.

O silêncio veio como um lençol pesado.

Miguel foi embora na manhã seguinte. A rua permaneceu. Helena também.

Os primeiros dias foram longos como postes de luz. Ela evitava passar pela esquina. Mas as ruas têm uma forma curiosa de nos chamar de volta. Não pelo concreto. Pelo que ficou entre as pedras.

Certa tarde, meses depois, Helena voltou a caminhar devagar pela Rua das Acácias. Havia uma árvore nova perto do meio-fio. Alguém plantara. Pequena, frágil, teimosa.

Ela sorriu.

Talvez não fosse preciso possuir uma rua para que ela fosse sua. Talvez bastasse ter amado ali.

Anos depois, Miguel voltou à cidade por acaso — ou destino, essas palavras que se confundem. Parou na antiga esquina. A rua parecia menor. Ou ele maior. Não sabia.

E então a viu.

Helena vinha caminhando com a mesma cadência de antes. Não correndo. Não fugindo. Apenas vindo.

Pararam um diante do outro como quem reencontra uma estação antiga.

— A rua continua aqui — ele disse.

— Continua — ela respondeu.

E havia tanto não dito entre eles que a própria rua pareceu respirar fundo.

Eles não prometeram nada. Não falaram sobre o passado como quem abre um álbum. Apenas caminharam lado a lado, deixando que os passos conversassem.

A rua não era deles.
Nunca foi.

Mas carregava a marca invisível de quem ama e parte, de quem parte e volta, de quem aprende que certos lugares não nos pertencem — nós é que pertencemos a eles.

E naquela tarde, sob o céu que começava a dourar, Helena pensou, sem dizer em voz alta:

Se essa rua fosse minha, eu não a pisaria com pedrinhas de brilhante.

Eu pisaria com cuidado.
Como quem sabe que o amor não é posse — é passagem.

E ainda assim, fica.

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Silvia Marchiori Buss

 

 

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