Levanta os Ombros e Segue
Levanta os ombros e segue.
Ela
escutou isso numa manhã comum demais para comportar qualquer milagre. A água do
café ainda não tinha fervido. A casa estava naquela suspensão entre o silêncio
da madrugada e o barulho do dia que começa.
Levanta
os ombros e segue.
Ela
ficou parada diante da pia. Não sabia se era delírio ou realidade. Não sabia se
tinha sonhado acordada. Mas a voz estava ali — não no ouvido, não no ar —
estava dentro da memória dos ossos. A voz do marido. Clara. Direta. Sem
dramatização.
Ele
sempre dizia isso quando algo quebrava, quando o carro não pegava, quando a
conta vinha mais alta, quando a vida parecia maior do que as forças.
Levanta
os ombros e segue.
Ela
encostou as mãos na borda da pia. Olhou o reflexo no vidro escuro da janela. Os
ombros estavam curvados. Pesados. Como se sustentassem não só o corpo, mas o
tempo inteiro que viveram juntos. Anos e anos sempre juntos.
O
tempo tinha dilatado naquela vida. Cresceu em risadas na cozinha, em domingos
de carne assando, em pequenas implicâncias sobre toalhas mal dobradas. Cresceu
em silêncios também. Em reconciliações que não precisavam de palavras.
E
agora o tempo tinha encolhido. Cabia numa ausência. Num lado vazio da cama. Num
prato que não precisava mais ser posto.
Levanta
os ombros e segue.
Ela
caminhou pela sala como se obedecesse a uma instrução invisível. O tapete ainda
tinha a marca da poltrona onde ele gostava de sentar. A luz da manhã
atravessava a cortina exatamente como atravessava quando ele estava ali.
Nada
na casa sabia que ele tinha ido.
Ou
talvez soubesse. Talvez a casa guardasse a vibração da presença dele nas
paredes. Talvez fosse isso que falava.
Ela
abriu a janela. O ar entrou frio. Sentiu uma pontada no peito — não de dor, mas
de reconhecimento. Aquela voz não a mandava esquecer. Não a mandava ser forte.
Não a mandava superar nada.
Mandava
apenas continuar.
Ela
tentou reproduzir o gesto que ele fazia. Um pequeno movimento quase
imperceptível: levantava os ombros, soltava o ar, como quem aceita o peso e,
ainda assim, anda.
Ela
fez o mesmo.
Os
ombros subiram devagar. Ficaram suspensos por um segundo. Depois desceram.
O
corpo respondeu primeiro. Os passos vieram depois.
Não
sabia se era loucura. Não sabia se era consolo inventado pela saudade. Não
sabia se a mente cria vozes para não se desfazer.
Mas
a voz tinha o timbre exato. A respiração certa entre as palavras. A economia
dele.
Levanta
os ombros e segue.
Ela
atravessou o corredor. Abriu a porta da rua. A manhã estava igual às outras. Um
vizinho varria a calçada. Um cachorro latiu distante. O mundo não tinha parado.
Talvez
o mundo nunca pare.
Ela
sentiu que, se ficasse imóvel demais, começaria a escutar a voz outra vez. Ou
talvez ela nunca tivesse deixado de escutar.
E
então entendeu — não com a razão, mas com a pele — que não importava se era
delírio ou realidade. Importava que os pés se moviam. Que o ar entrava. Que a
vida, mesmo enrugada, mesmo menor, ainda pulsava sob a ausência.
Levanta
os ombros e segue.
Ela
levantou.
E
seguiu.
Silvia
Marchiori Buss
Comentários
Postar um comentário