Raízes Que Ninguém Vê

 “O que a gente viveu, ninguém rouba”.


Fica entranhado na pele, nos ossos, no jeito de olhar o mundo. Fica no modo como se segura uma xícara, como se dobra uma camisa, como se chama alguém pelo nome.

A morte veio — e veio sem avisar, simplesmente chegou.
Levou quem era casa. Levou quem era riso fácil na cozinha, quem sabia o caminho das minhas mãos no escuro, quem dividia o silêncio sem precisar preenchê-lo. Levou o pai dos meus filhos, o homem que me acompanhou na travessia inteira de quase meio século. Levou meu amor.

E eu fiquei.

Fiquei como árvore em terreno aberto depois da tempestade.
A raiz principal arrancada, a terra revolvida, o ar entrando por dentro das fibras. Por alguns dias — ou meses, ou anos, porque o tempo depois da perda não sabe mais se organizar — pensei que tombaria também. Porque era daquela raiz grossa que eu retirava a seiva. Era dela que vinha o sustento invisível, a força silenciosa que me mantinha de pé sem que eu percebesse.

Sem ela, o mundo pareceu seco.

Mas árvore antiga tem segredos que nem ela mesma conhece.

Sob a terra, onde ninguém vê, outras raízes começam a se esticar devagar. Não fazem barulho. Não anunciam milagre. Apenas procuram. Procuram água onde antes não precisavam procurar. Procuram apoio onde antes já havia firmeza. São finas, quase frágeis — mas insistentes.

Eu descobri que também tinha essas raízes subterrâneas.

Elas estavam nos meus filhos, que carregam no gesto alguma coisa dele.
Nos netos, que correm pela casa como se o riso fosse um modo de manter alguém vivo.
Nos amigos que chegam sem discurso, só com presença.
Na escrita — essa terra funda onde enterro a dor e, às vezes, encontro flor.

Não foi escolha heroica.
Não houve promessa ao céu nem pacto com a esperança. Houve apenas um dia depois do outro. Café feito para uma pessoa só. Uma cadeira vazia. Uma camisa que já não precisa ser passada. E, ainda assim, o sol entrando pela janela como sempre entrou.

Eu poderia ter secado.

Mas a vida, mesmo ferida, continuou me pedindo pequenas coisas: pagar contas, regar plantas, atender telefone, ouvir histórias. E enquanto eu fazia o que precisava ser feito, as raízes invisíveis iam se aprofundando.

Não substituem a raiz perdida.
Nada substitui.

Mas sustentam.

Há uma diferença entre sobreviver e continuar.
Eu continuo.

Carrego comigo o que vivemos — as viagens, as músicas, as discussões tolas, as noites longas, a juventude que tivemos e a velhice que começávamos a ensaiar juntos. Nada disso foi roubado. Está guardado numa camada de mim que a morte não alcança.

A morte levou o homem.
Não levou o que fomos.

Hoje, quando me sinto vacilar, lembro que sou feita de mais do que uma única raiz. Sou feita de memória, de filhos, de netos, de amigos, de palavras. Sou feita do amor que existiu — e que, de algum modo, ainda circula como seiva antiga dentro do meu tronco.

Há dias em que o vento sopra forte.
Há noites em que a ausência pesa como inverno.

Mas sigo de pé.

Não porque sou forte demais.
E sim porque, debaixo da terra, há raízes trabalhando em silêncio.

E isso — ninguém rouba.

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Silvia Marchiori Buss

 

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