Entre Água e Pedra

 Quando Clara disse aquilo, foi quase num sussurro:

— Se eu não te amasse tanto assim…

Miguel não respondeu. Ele estava na varanda, apoiado no parapeito do apartamento antigo da Rua das Laranjeiras, olhando a cidade como se ela pudesse explicar alguma coisa. Era noite, mas não chovia. O mundo estava indeciso, como eles.

Clara repetiu, agora mais firme:

— Se eu não te amasse tanto assim, seria mais simples.

Ele virou o rosto devagar. Não havia raiva. Havia cansaço.

Eles não eram um casal de tempestades. Eram de silêncios. De café passado às seis da manhã. De dividir o último pedaço de pão como se fosse uma decisão diplomática. De lembrar datas que ninguém mais lembrava.

O problema nunca foi falta de amor.

O problema era excesso.

Miguel tinha o hábito de ir embora antes de ir embora. Ficava distante mesmo sentado ao lado. Guardava medos em caixas invisíveis. Clara, ao contrário, queria abrir tudo, ventilar, mexer nas feridas até que cicatrizassem.

Ele dizia:
— Nem tudo precisa ser resolvido.

Ela pensava:
— Mas tudo precisa ser sentido.

Entre eles, o amor corria como água insistente tocando uma pedra antiga. Não era barulho. Era persistência.

E assim foram acumulando pequenas diferenças como quem guarda cartas numa gaveta que já não fecha.

Naquela noite, Clara não estava fazendo drama. Estava fazendo uma constatação.

Se não o amasse tanto, não doeria quando ele se fechava.
Se não o amasse tanto, não esperaria que ele dissesse o que nunca soube dizer.
Se não o amasse tanto, poderia simplesmente ir embora sem essa sensação de amputação.

Mas ela amava. Amar, às vezes, é uma espécie de teimosia elegante.

Miguel caminhou até ela.

— Você acha que eu não amo?

Ela sorriu triste.

— Eu acho que você ama como quem segura água nas mãos. E eu amo como quem mergulha.

Ele ficou em silêncio. Não pra fugir — mas por compreensão.

O amor deles nunca foi leve. Era denso, quase mineral. Não flutuava, sedimentava. Como se o tempo estivesse sempre trabalhando ali, devagar, entre água e pedra.

Na cozinha, o relógio marcava onze e quarenta e três. Um horário qualquer que, anos depois, talvez voltasse como um fantasma na memória.

Clara pegou a bolsa.

Não havia gritos.
Não havia pratos quebrados.
Não havia frases definitivas.

Só aquela frase suspensa no ar:

— Se eu não te amasse tanto assim…

Miguel não pediu para ela ficar.

E foi isso que mais doeu.

Na porta, Clara parou. Esperou. Não por palavras bonitas. Mas por um gesto mínimo. Um risco no silêncio. Um quase.

Nada.

Ela saiu.

Miguel permaneceu imóvel por alguns segundos que pareceram uma estação inteira. Depois sentou no chão da sala, encostado na parede, como se o corpo tivesse finalmente entendido o que o orgulho ainda negava.

Amar demais não os salvou.

Mas também não foi em vão.

Anos depois, quando Clara atravessava a praça com os cabelos já riscados de branco, ouviu alguém chamar seu nome.

Era Miguel.

Mais magro. Mais lento. Como se o tempo tivesse aprendido a tocar nele.

Eles se olharam longamente. Não como amantes. Como sobreviventes.

— Você está bem? — ele perguntou.

Ela demorou para responder.

— Estou.

Um silêncio antigo passou entre eles. Não era constrangedor. Era conhecido.

Miguel abriu a boca como quem ensaia uma confissão tardia, mas as palavras não vieram. Talvez nunca tenham sido dele.

Clara percebeu que já não esperava nada.

E isso não era indiferença. Era só paz.

— Eu pensei em você muitas vezes — ele disse por fim.

Ela sorriu de leve.

— Eu sei.

O vento moveu as folhas da praça. Um gesto mínimo do mundo.

Não falaram de arrependimentos. Não falaram do que poderia ter sido. O que não foi já estava assentado dentro deles, como um móvel pesado que ninguém tenta mais arrastar.

Antes de se despedirem, Miguel tocou de leve o braço dela. Um toque breve, mas inteiro.

Clara sentiu.

E não doeu.

Ela seguiu seu caminho.

Sem frases finais.
Sem conclusões.
Sem lições.

Apenas a lembrança de que algumas histórias não se quebram. Elas vão se transformando devagar.

 

Parte superior do formulário

 

Parte inferior do formulário

Silvia Marchiori Buss

 

 

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Energia na Parede

Navegando na Ausência

O Silêncio da Professora