A Pele do Tempo

Ela percebeu que o tempo não andava no relógio.

Andava na pele.

Foi no instante em que ele tocou o dorso da sua mão — não um toque apressado, mas aquele toque que pergunta antes de existir. E ali o mundo falhou. Não parou. Falhou. Como se alguém tivesse puxado o fio invisível que sustenta os minutos.

O bar continuava cheio. Copos tilintavam. Uma criança chorava ao longe. Mas entre os dois havia uma espécie de redoma morna onde o ar ficava mais espesso. Respirar exigia consciência. Sorrir exigia coragem.

E o tempo… o tempo se dilatava.

Cabiam décadas dentro de um olhar. Cabiam histórias nunca vividas dentro de um segundo que não terminava. Ele dizia alguma coisa simples — qualquer coisa sobre o frio da noite, sobre o vinho, sobre nada — e a voz dele atravessava nela como se tivesse sido esperada há anos.

Ela riu. E quando riu, o minuto abriu-se como uma fruta madura.

O tempo dilata quando o corpo reconhece antes da razão.

A cada toque leve no braço, a cada sorriso que demorava meio centímetro a mais do que o aceitável, o mundo externo ia ficando pequeno, distante, quase infantil. Existiam apenas duas pulsações tentando descobrir se batiam no mesmo ritmo.

Não era paixão ainda. Era suspensão.

Ele inclinou o rosto para ouvir melhor o que ela dizia. E aquele gesto banal fez com que o tempo esticasse tanto que doeu. Porque dentro daquele gesto cabia a promessa de um depois. E o depois é sempre um território frágil.

Quando se levantaram para ir embora, parecia que tinham vivido uma estação inteira.

Mas o tempo, que sabe ser generoso, também sabe ser cruel.

No dia seguinte, a vida retomou seu passo comum. Compromissos. Telefones. Obrigações. As mensagens passaram a ter intervalos. As respostas deixaram de ser imediatas. Aquele minuto que cabia uma eternidade começou a encolher.

O tempo enruga quando o desejo hesita.

Os toques ficaram mais raros. Os encontros, mais calculados. O sorriso já não demorava. Era rápido, educado, quase prudente. E o que antes se expandia como universo começou a contrair-se como tecido lavado demais.

Até que um dia não houve toque.

Nem riso.

Nem redoma.

O tempo não voltou ao normal. Ele simplesmente enrugou. Diminuiu até caber numa lembrança. Encolheu-se no silêncio entre uma mensagem não enviada e um nome que já não aparece na tela.

E então sumiu.

Sem alarde.

Como some a marca dos dedos quando a pele esfria.

 

Silvia Marchiori Buss

 

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