Mabel Na Cidade dos Sussurros
A cidade não tinha nome nos mapas. Chamavam-na de Cidade dos Sussurros porque ninguém ali falava alto — as palavras eram ditas como quem sopra sobre a água para não formar ondas.
Mabel
chegou numa manhã fria, com uma mala pequena e um medo grande. Não sabia
exatamente o que procurava, mas sabia o que havia perdido. E às vezes isso
basta para que os pés escolham um caminho.
As
ruas eram estreitas, as janelas altas, e das frestas escapavam murmúrios. Não
eram vozes claras. Eram quase lembranças. Um “fica”, um “volta”, um “ainda
estou aqui”. Mabel parava diante das portas como se pudesse reconhecer, entre
tantos sussurros, aquele que lhe pertencia.
Desde
pequena, Mabel aprendera a escutar o que os outros não ouviam. No orfanato onde
cresceu — um prédio antigo que respirava à noite — ela distinguia o ranger das
tábuas do suspiro do vento. E sabia quando o silêncio estava pesado demais para
ser apenas silêncio.
Na
Cidade dos Sussurros, o silêncio era uma língua.
No
primeiro dia, entrou numa padaria. O cheiro de pão quente era o único som
inteiro naquele lugar. A mulher atrás do balcão lhe entregou um pedaço de broa
e disse, quase sem mexer os lábios:
—
Aqui a gente guarda o que não pode gritar.
Mabel
não perguntou nada. Havia aprendido que perguntas altas espantam respostas
delicadas.
À
noite, hospedou-se numa pensão onde as paredes eram finas como papel de carta.
Deitada, ouviu os quartos vizinhos. Um homem repetia um nome feminino como se
fosse oração. Uma criança murmurava desculpas a alguém que já não estava. Uma
senhora dizia baixinho que perdoava, perdoava, perdoava.
E
então, no meio daquela corrente de vozes quebradas, ela ouviu um sussurro
diferente.
Não
era pedido. Não era lamento.
Era
um chamado.
—
Mabel.
Sentou-se
na cama. O quarto estava escuro, mas o nome permanecia no ar, como poeira
iluminada.
—
Mabel.
Ela
reconheceu o timbre não pelo som, mas pela ausência que preenchia. Havia anos
que não ouvia aquela voz. Havia anos que fingia não procurar.
Saiu
da pensão descalça. A cidade parecia saber para onde conduzi-la. As lanternas
acendiam-se uma a uma, como se indicassem o caminho. As ruas se estreitavam até
virar um beco onde a neblina era quase matéria.
Ali,
no fim, havia uma casa abandonada.
Mabel
empurrou a porta. O interior cheirava a madeira antiga e chuva guardada. No
centro do cômodo, uma cadeira. Sobre ela, um cachecol azul.
Ela
se aproximou devagar.
Não
havia ninguém.
Mas
o sussurro estava ali — não como voz, mas como presença. Como se o ar tivesse
aprendido a guardar a forma de quem partiu.
Mabel
segurou o cachecol contra o peito. Durante anos acreditara que o amor precisava
de corpo para existir. Naquela casa vazia, compreendeu outra coisa: algumas
presenças se tornam respiração do mundo.
—
Eu ouvi — disse ela, finalmente, em voz alta.
E
a cidade inteira pareceu suspirar.
Na
Cidade dos Sussurros, ninguém grita porque o que é verdadeiro não precisa de
volume. Precisa de escuta.
Mabel
ficou ali até o amanhecer. Não esperava mais respostas. Não exigia mais
aparições. Sabia agora que o que havia perdido não desaparecera — apenas mudara
de forma.
Quando
saiu da casa, o céu estava claro. Pela primeira vez, a cidade não murmurava
despedidas. Sussurrava começo.
E
Mabel caminhou pelas ruas com a mala pequena e o coração menos pesado, sabendo
que aprendera a língua mais difícil de todas:
a
de ouvir o que permanece.
Silvia
Marchiori Buss
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