Desassossego

O desassossego não chega fazendo estardalhaço.

Ele se instala como um copo fora do lugar na pia. Como uma cadeira levemente torta na sala. Como um silêncio que respira mais alto do que deveria.

A gente acorda e ele já está sentado à beira da cama, olhando. Não diz nada. Mas pesa.

Tem dias em que o desassossego é quase elegante — uma inquietação fina, que nos faz rearrumar livros, trocar móveis de lugar, abrir janelas antes do café. Nesses dias, ele parece motor. Move. Empurra. Sussurra que ainda há algo por fazer, por escrever, por amar.

Mas há dias em que ele é pedra.

Nesses dias, tudo parece fora de eixo. O corpo anda, mas por dentro algo não acompanha. As conversas acontecem, mas chegam com atraso. A cidade segue seu ritmo — ônibus, mercados, gente comprando pão — e nós, levemente desalinhados, como se estivéssemos vivendo meio centímetro ao lado da própria vida.

O desassossego não gosta de multidão. Ele prefere o entardecer. Gosta da hora em que a luz enfraquece e as sombras crescem nas paredes. É nesse instante que ele se aproxima mais. Encosta no ombro. Pergunta, sem voz: “É só isso?”

Não é tristeza. Não é exatamente saudade. Também não é falta de gratidão. É outra coisa. Uma espécie de tremor interno. Como se alguma parte nossa soubesse que o mundo não se explica inteiro — e não aceitasse isso com facilidade.

Há quem tente expulsá-lo com ruído: televisão alta, agenda cheia, listas intermináveis. Há quem o chame pelo nome, sente com ele à mesa e aceite sua presença.

Eu desconfio que o desassossego é uma forma de memória.
Ele nos lembra que já fomos mais inteiros em algum momento — ou que ainda podemos ser outra coisa que ainda não sabemos nomear.

Ele não é confortável. Mas também não é inútil.

É o desassossego que nos faz levantar da cadeira quando tudo parece acomodado demais. É ele que cutuca quando a vida vira repetição automática. É ele que sopra: “Ainda não terminou.”

Talvez o problema não seja o desassossego.
Talvez o susto seja perceber que ele é parte da engrenagem. Que viver não é repouso contínuo. Viver é movimento, é rodopio. Que até as árvores, aparentemente imóveis, têm seiva em movimento.

E assim seguimos — um pouco fora do lugar, um pouco em busca, um pouco cansados, um pouco atentos.

O desassossego não vai embora.
Mas, às vezes, ele se aquieta quando escrevemos.

E, por alguns minutos, tudo parece caber dentro da palavra.

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Silvia Marchiori Buss

 

 

 

 

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